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Pesquisa de Cuba sobre doença neurodegenerativa recebe prêmio

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Apesar das dificuldades impostas por mais de 60 anos de bloqueio, Cuba é uma referência internacional no desenvolvimento da ciência. Ao contrário de outros países, este desenvolvimento não se baseia na indústria militar ou na busca de rentabilidade corporativa. Pelo contrário, ela é impulsionada pela busca de soluções de problemas sociais.

Essa prioridade foi destaca pela premiação da cientista cubana Yailé Caballero Mota. Integrante da Academia Mundial de Ciências e Diretora de Relações Internacionais da Universidade de Camagüey, Mota foi uma das agraciadas com o Prêmio Sofia Kovalevskaya por sua pesquisa sobre ataxia, uma doença neurodegenerativa causada principalmente por danos à parte do cérebro que lida com movimento, coordenação e equilíbrio. É uma enfermidade hereditária e degenerativa do sistema nervoso. As manifestações mais frequentes são instabilidade postural, cãibras musculares, distúrbios cognitivos, anomalias do sono, etc.

“Estou muito orgulhosa de ter recebido o Prêmio Sofia Kovalevskaya. Recebo este prêmio em nome das mulheres cientistas e especificamente daquelas de nós que contribuem para as ciências matemáticas e da computação. Penso que além de me sentir muito orgulhosa de ter recebido o prêmio, isso também representa um compromisso e novos desafios com meu grupo de pesquisa, com meus alunos, para contribuir cada vez mais para o desenvolvimento da sociedade através de nossa ciência, que é a inteligência artificial”, afirma a cientista em entrevista ao Brasil de Fato.

Mota faz parte de uma equipe que pesquisa e desenvolve o estudo de técnicas inteligentes na aquisição de conhecimentos sobre a ataxia.

“Realizamos o estudo de técnicas inteligentes na aquisição de conhecimento sobre ataxias, devido à gravidade desta doença e sua prevalência no país, especialmente na região leste. Nesta pesquisa, técnicas inteligentes são utilizadas para prever a progressão do SCA2 [um tipo de ataxia], analisando dados de seu avanço em um grupo de pacientes e [em um grupo de] controle, utilizando métodos baseados em protótipos”, diz.

A premiação da Unesco é um incentivo para mulheres cientistas de países de média e baixa renda. O nome do prêmio é uma homenagem à matemática russa, socialista e feminista Sofia Vasilievna Kovalevskaya (1850-1891), que foi a primeira mulher a ser professora de matemática na Europa.

Será que os androides sonham com ovelhas elétricas?

Mota é pioneira em diversas áreas de pesquisa na ilha. Nascida em uma família médica, ela comenta que desde cedo se interessou por matemática. Foi este interesse que a levou a estudar informática, uma das ciências que mais se transformou nos últimos anos. “Quando eu estava estudando, os computadores ocupavam salas inteiras, eram estas máquinas gigantescas”, ela se lembra com um sorriso ao apontar para seu telefone celular, um pequeno computador que ela guarda no bolso.

Na Clínica do Sono do Centro de Neurociência Cubano, ela fez sua tese de graduação, desenvolvendo um gerador automático de regras para a classificação dos estágios do sono. Pouco depois de apresentar sua tese, ela entrou para o grupo de pesquisa de Inteligência Artificial da Universidade de Camagüey. Há 20 anos, ela lidera esta equipe, com a qual desenvolveu aplicações inteligentes para a solução de problemas em áreas como meteorologia, engenharia civil, biotecnologia, desenvolvimento turístico, saúde, produção de alimentos, educação, gestão eficiente de energia, entre outras.

Os rápidos desenvolvimentos da inteligência artificial em campos tão diversos como criação artística, comunicação ou medicina estão gerando grandes debates sobre o uso destas tecnologias. Muitas opiniões estão divididas entre aqueles que rejeitam estas tecnologias e aqueles que argumentam a favor.

Mota avalia que o Estado deve ter o controle dos usos da ferramenta, através de regulamentos e convenções. Ela argumenta que o livre uso do mercado pode levar a desenvolvimentos negativos.

“Um exemplo da aplicação de nossa pesquisa foi a aquisição de conhecimentos sobre a letalidade da covid-19. Assim que a pandemia começou em nosso país, utilizando técnicas de inteligência artificial, fomos detectando os padrões, as variáveis que poderiam levar ao desenvolvimento fatal desta doença. E foi precisamente com técnicas de inteligência artificial. Em outras palavras, muitas contribuições foram feitas ao conhecimento a partir da inteligência artificial para interpretar a doença, para combater a pandemia” afirma.

A ciência tem o nome de uma mulher

A cientista afirma que Cuba “é um país que confia nas mulheres” e destaca o aumento da participação feminina nas candidaturas para a Assembleia Nacional, mas ressalta que o preconceito é uma realidade da sociedade cubana: “Ainda há brechas e barreiras na sociedade que precisam ser superadas”.

Ela lembra que quando cursou seus estudos universitários, eram muito poucas as mulheres que estudavam com ela. Em geral, a ciência parecia ser algo reservado aos homens. Entretanto, ela observa que isso começou a mudar nos últimos anos. Mota agora ensina na mesma universidade onde estudou, e ela diz que tem um número crescente de mulheres estudantes. No entanto, embora tenha havido avanços importantes, ela aponta que “ainda hoje encontramos pessoas machistas que não conseguem reconhecer a liderança das mulheres no local de trabalho e na profissão”.

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