Recém-formados reprovam Novo Ensino Médio do governo Temer

Uma pesquisa feita com a primeira geração de estudantes concluintes do chamado Novo Ensino Médio (NEM) apontou que o grupo desaprovou o modelo. O estudo foi conduzido pela Rede Escola Pública e Universidade (Repu) junto ao Grupo Escola Pública e Democracia (Gepud). A reforma que instituiu as mudanças nessa etapa de ensino foi sancionada em 2017 pelo então presidente Michel Temer, mesmo com críticas de movimentos ligados à educação.

O NEM trouxe alterações na carga horária, que foi dividida entre componentes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e os itinerários formativos que deveriam ser voltados ao mercado de trabalho. As disciplinas de língua portuguesa e matemática passaram a ser as únicas obrigatórias para todos os anos do ensino médio.

O modelo não funcionou, segundo Ana Paula Corti, professora do Instituto Federal de São Paulo (IFSP). Ela é integrante da Repu e do Gepud e comentou os resultados da pesquisa, a primeira feita com estudantes que cursaram os três anos do NEM.

“Em relação aos itinerários, encontramos um quadro muito preocupante, porque a grande maioria dos estudantes afirma que cursaram o itinerário formativo que não escolheram. Mesmo quando eles escolhem o itinerário, muitas vezes a escola não oferece aquele itinerário. Em relação à expansão da carga horária, o quadro que a gente achou também foi preocupante. Mais de 60% dos alunos afirmam que não cursaram as aulas de expansão de carga horária. Metade dos alunos que cursaram fez essas aulas à distância”, expõe Ana Paula.

Além de não aprovarem a mudança na estrutura do ensino, 85% dos estudantes que responderam à pesquisa não se sentem aptos para fazer o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), principal porta de entrada nas universidades do Brasil. A falta de preparo deixa os vestibulandos ainda mais desmotivados e sem perspectiva de futuro, argumenta a professora.

“Eles reclamam muito de terem perdido, principalmente no segundo e terceiro ano, as aulas das disciplinas básicas. E o quadro é meio assustador. Eles dizem que não tiveram nada de Biologia, Química, Física, Sociologia, Filosofia, História e Geografia no terceiro ano do ensino médio. Então, de fato, percebemos nas respostas que esse currículo é esvaziado, o aluno está sentindo isso na pele, ele está percebendo o rebaixamento da sua formação. Eles demonstram um desalento com essa percepção do esvaziamento do currículo e estão vendo as chances de ingresso na universidade via Enem minguando”, pontua Ana Paula Corti.

Nesta quarta-feira (20), a Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei que implementa novas mudanças no ensino médio. O PL foi enviado pelo governo federal ao Congresso no fim do ano passado, mas teve seu texto modificado pelo relator, o ex-ministro da educação de Temer Mendonça Filho, responsável pela aprovação do NEM em 2017. Agora, o texto será analisado no Senado. Apesar de mexer e aumentar a carga horária de disciplinas obrigatórias, contemplando as demandas de alunos, professores, pesquisadores e movimentos ligados à educação, a proposta não resolve todos os problemas do ensino médio.

“A proposta que foi aprovada nos deixa com muitas preocupações. Um avanço foi resultado direto das denúncias da insatisfação da sociedade em relação à redução das disciplinas básicas no currículo: a volta das 2,4 mil horas. Então, o texto tem essa conquista. Entretanto, muitos outros pontos da reforma não foram tocados, eu diria até que é muito pelo contrário. O texto aprovado reforça aspectos muito questionáveis, porque ele mantém os itinerários formativos, que é a parte mais criticada da reforma. Ele abre espaço para que essa carga horária seja recheada com disciplinas que não são da educação básica. Uma das grandes derrotas é que ele não assegura, em nenhum momento, a obrigatoriedade das disciplinas científicas, humanísticas e da educação básica”, desabafa Ana Paula.

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