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Em vez de permanecer restrito às salas de aula, o conhecimento universitário desembarcou em comunidades ribeirinhas, ilhas e municípios do interior da Amazônia paraense. Durante uma semana, estudantes e professores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), em parceria com instituições do Pará, desenvolveram oficinas, formações e atividades voltadas a áreas como saúde, educação, direitos humanos, acessibilidade, comunicação, meio ambiente e geração de renda.
A ação integrou a edição comemorativa dos 30 anos do Programa Trilhas Potiguares, realizada entre os dias 14 e 20 de junho no Pará. Ao longo da programação, mais de 60 atividades foram desenvolvidas em cinco municípios, alcançando cerca de 1.300 participantes.
Criado em 1996 pela Pró-Reitoria de Extensão da UFRN, o Trilhas Potiguares consolidou-se como um dos principais programas de extensão universitária do país. Tradicionalmente desenvolvido em municípios do Rio Grande do Norte, o projeto vem ampliando seu alcance nos últimos anos, estabelecendo parcerias com universidades de outras regiões brasileiras e também do exterior.
Nesta edição, participaram 25 estudantes e 11 docentes da UFRN, que atuaram em conjunto com equipes do Instituto Federal do Pará (IFPA) e da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA). As atividades foram distribuídas entre Belém, São Sebastião da Boa Vista, Aurora do Pará, Tomé-Açu e Curuçá.
Para atender diferentes territórios, os extensionistas foram divididos em duas frentes de trabalho. Uma delas concentrou ações em comunidades insulares, como Outeiro, Combu e a Ilha de Marajó. A outra percorreu municípios da região nordeste do estado. O encerramento ocorreu em Belém, durante o Seminário Internacional de Pesquisa e Extensão Trilhas Potiguares Amazônia 2026.
Entre as oficinas que despertaram maior interesse das comunidades estiveram as voltadas à acessibilidade e à Língua Brasileira de Sinais (Libras). Ministradas por estudantes e docentes da UFRN, elas reuniram professores, estudantes e servidores públicos da educação para discutir inclusão de pessoas com deficiência no ambiente escolar.
O estudante Elvis Gley, integrante da equipe e pessoa surda, destacou o interesse demonstrado pelos participantes. Segundo ele, as conversas continuaram mesmo após o encerramento das oficinas.
“Na Ilha de Marajó, os professores e servidores públicos não conheciam sobre capacitismo. Fiquei feliz em passar informações sobre como a realidade dói e como somos fortes. Agora eles estão bem informados”, afirmou.
Para o coordenador do programa e pró-reitor adjunto de Extensão da UFRN, Luiz Alves, a experiência também fortaleceu a cooperação entre universidades e deve deixar resultados permanentes nas instituições envolvidas. Segundo ele, a expectativa é que a parceria incentive a criação, pela UFRA, de um programa próprio de extensão inspirado no Trilhas Potiguares.
A internacionalização também marcou a edição comemorativa. Docentes da Universidade de Múrcia, na Espanha, e da Universidade Save, de Moçambique, participaram das atividades, ampliando a troca de experiências sobre extensão universitária e desenvolvimento comunitário.
Para a professora moçambicana Crisalita Djeco Funes, da Universidade Save, iniciativas como essa ajudam estudantes a perceber que a universidade pode ser um caminho possível. Ela defendeu a integração entre ensino, pesquisa e extensão como instrumento de transformação social.
A história do programa também foi marcada por reencontros. A professora Liz Pereira, atualmente docente do IFPA, participou da primeira edição do Trilhas Potiguares, em 1996, quando ainda era estudante da UFRN. Após construir sua carreira na Amazônia, voltou a integrar uma ação do programa quase três décadas depois.
Segundo ela, reencontrar colegas e acompanhar o crescimento do projeto foi uma experiência emocionante.
“Foi uma injeção de ânimo. Quando vesti a camisa, me senti em casa duas vezes.”
Enquanto celebrava seus 30 anos com uma edição realizada fora do Rio Grande do Norte, o programa também confirmou a continuidade de suas ações no estado. Em julho, o Trilhas Potiguares retorna aos municípios potiguares com uma nova edição, que deverá atender 15 cidades sob o tema “Sociedade e academia: 30 anos de extensão com diálogo, parceria e impacto social”.
Mais do que uma comemoração, a iniciativa busca reafirmar um princípio que acompanha o programa desde sua criação: aproximar a universidade das comunidades, transformando o conhecimento produzido no ensino superior em ações concretas voltadas às demandas dos territórios.
Com informações de Lucas Tragino, Projeto Comtrilhas
