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Janvita aprendeu cedo a usar a imaginação como ferramenta de sobrevivência. Antes de se reconhecer artista, antes mesmo de entender a própria identidade, já atravessava o mundo pela música, pelo cinema e pela fantasia.
“Eu fui uma criança que trabalhei muito no mundo da ficção, de moldar minha perspectiva a partir disso”conta.
Era, segundo ela, uma forma de escapar e, ao mesmo tempo, compreender a realidade.
Essa reportagem integra a série Traquejopublicada pela Agência Saiba Mais, com perfis de artistas transexuais de Natal. Leia os perfis de outras artistas ao final deste texto.
Filha de um pai cinéfilo, cresceu cercada por filmes, trilhas sonoras e referências que ajudaram a construir seu olhar sobre o mundo. A música, diz, sempre esteve presente, desde criança.
Esse repertório afetivo e cultural foi decisivo para que, ainda jovem, percebesse algo que só mais tarde ganharia forma: a arte seria central na sua existência.
Essa relação, no entanto, não se traduziu imediatamente em carreira. Apesar de cantar desde cedo, Janvita demorou a se enxergar profissionalmente na música. O bloqueio não era técnico, mas subjetivo.
“Eu tinha muito medo. Eu tinha medo do que eu era, do que eu poderia desenvolver”explica Javita, lembrando que o ponto de virada veio com a transição de gênero.:
“É muito surreal como a transição teve um papel fundamental pra eu me entender como artista”afirma.
Ao se reconhecer enquanto travesti, também passou a se perceber como alguém madura artisticamente. A arte deixou de ser apenas conexão com o imaginário e passou a funcionar como um canal de elaboração emocional.
“A arte veio pra dar vazão a coisas que não faziam sentido na minha cabeça.”
Essa descoberta aconteceu em paralelo a uma vivência que ela descreve como uma “segunda juventude”. Ao viver experiências afetivas e sociais a partir de sua identidade de gênero, Janvita passou a acessar dimensões que lhe foram negadas anteriormente.
“A gente vivencia primeiros amores, coisas da adolescência, mesmo não estando mais nessa idade.”
Foi também nesse processo que o canto ganhou outra dimensão.
“Eu pensei: eu sou uma cantora e posso trabalhar com isso.”
A confiança se consolidou dentro de um coletivo, especialmente no grupo da qual faz parte hoje, o Taj Ma House, onde afirma se sentir “mais realizada profissional e artisticamente”.
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Música eletrônica no Beco da Lama
A trajetória de Janvita está profundamente ligada à cena de música eletrônica, especialmente à house music. Para ela, esse universo sempre foi mais do que estética sonora. É território político, afetivo e de pertencimento. “A música é um lugar que acolhe pessoas dissidentes”, diz. E explica por que tantas pessoas trans se destacam nesse campo: “Elas estão tencionando os limites da arte, fazendo música vanguardista, fora da lógica mercadológica”.
A relação com a house começou na pista. Um momento específico marcou esse encontro.
“Fui para o Bar da Meladinha, escutei muita house music, fiquei fissurada. Hoje eu sou cantora de house music. A pista de dança é um lugar de liberdade, de expressão e de conhecimento de si“, reflete.
Em Natal, essa vivência se conecta diretamente com territórios simbólicos da cidade, como o Beco da Lama e a Ribeira. Foi ali que Janvita se formou artisticamente, transitando entre festas, sets de DJ e experimentações sonoras. Começou a tocar em 2015, ainda no contexto do boom das drags locais.
“Eu comecei como DJ e fui tomando notoriedade com sets que misturavam pop com coisas não óbvias”ele lembra.
Autodidata, aprendeu a mixar sozinha, explorando plataformas digitais e acompanhando produtores que, anos depois, se tornariam referências na música pop brasileira.
“As pessoas que eu ouvia lá em 2014, 2015, hoje produzem discos de grandes artistas”observe.
A profissionalização veio depois da pandemia, junto com o aprofundamento do processo de transição. Foi também nesse período que passou a investir mais na produção cultural e na criação de eventos próprios. Um deles, a Janvitônicasurgiu inicialmente como uma estratégia de renda, mas rapidamente se transformou em espaço de experimentação estética e política.
“A gente via nos eventos uma forma de explorar nossa criatividade.”
No início de 2026, Natal recebeu a 5ª edição da festa Janvitônica Transeletrônica, intitulada
“Uma celebração do pioneirismo transexual na música eletrônica”, reforçando a proposta do evento de destacar o protagonismo de pessoas trans na cena eletrônica.
A programação contou com a presença do artista nacional Badsista, ampliando o alcance da iniciativa, que ao longo das edições tem se firmado como espaço de v memória e afirmação política dentro da cultura clubber.
Rotina no Centro Histórico e a aproximação da vida noturna
A experiência de morar sozinha, no centro histórico de Natal, também foi decisiva. A saída da casa dos pais representou mais do que independência financeira:
“Foi uma forma de não odiar meus pais”, afirma, ao falar sobre o impacto emocional daquele ambiente. A mudança permitiu que se aproximasse ainda mais da cena noturna e cultural da cidade.
Nesse contexto, projetos coletivos ganharam força, como a Rádio Meladona, criada durante a pandemia para manter a comunidade conectada. “Era uma pista online”, lembra. A iniciativa reunia pessoas de diferentes cidades, todas ligadas pela música e pela vivência da noite potiguar.
Hoje, Janvita integra uma cena que ela define como consistente e historicamente fundamentada.
“Não é só brincadeira quando a gente fala que Natal é a capital da house music”, diz.
Para ela, há uma linhagem que remonta aos anos 1980 e que continua sendo construída por artistas locais.
Essa construção, no entanto, enfrenta desafios. A falta de financiamento para iniciativas independentes contrasta com o apoio a eventos mais alinhados ao mainstream. Ainda assim, a artista destaca a força das redes de apoio dentro da cena underground.
“A gente precisa mostrar nosso valor para quem enxerga aquilo como valoroso.”
O reconhecimento tem ultrapassado fronteiras. Um show de 30 minutos, realizado em Recife, foi suficiente para garantir uma apresentação na Europa.
“Quando algo é genuíno, com identidade e história, ele chega”afirma a artista, relembrando o Showcase do Taj Ma House no Coquetel Molotov Negócios.
A experiência internacional também trouxe novos olhares sobre a música eletrônica.
“Lá fora, a pista tinha criança, idoso, todo tipo de pessoa.”
Um contraste com a realidade local, onde o público é majoritariamente formado por pessoas LGBTQIAPN+.
Atualmente, Janvita vive um momento de concentração criativa. Com o grupo, prepara o lançamento de um disco com 12 faixas, algumas ultrapassando oito minutos de duração. A proposta é resgatar uma experiência mais imersiva da música eletrônica, distante da lógica acelerada do streaming.
“A gente quer fazer uma música pra ser vivida, não só ouvida.”
Paralelamente, Janvita desenvolve um projeto solo ainda em fase inicial. Por ora, a prioridade é o trabalho coletivo, o Taj Ma House. A cantora também destaca colaborações recentes com LEOA e Dandarona, artistas com quem construiu sua trajetória e nas quais participou em faixas autorais.
Ouça:
Ao olhar para a própria trajetória, Janvita reconhece que ainda está no começo.
“O que eu sou hoje é só um pedacinho”, diz.
Mas há uma convicção que atravessa toda a sua fala: que arte, identidade e comunidade são inseparáveis.
“Eu acredito muito no que eu desenvolvo”afirma. E completa, com a mesma mistura de intuição e experiência que marcou sua caminhada até aqui: “Eu desenvolvi uma fé que veio junto com a minha transição, mas ela só cresce, só se solidifica.”
Esta reportagem faz parte da série Traquejoda Agência Saiba Mais. O nome remete à habilidade de “se virar”, de encontrar experiências e seguir em movimento. A proposta é contar histórias de pessoas trans e travestis potiguares que, em contextos muitas vezes adversos, constroem seus próprios caminhos, criando estratégias e formas de fazer acontecer.
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