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Greve em SP: mídia reproduz discurso de Tarcísio, mas ameniza crítica diante de pane em linha privatizada

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A postura da grande mídia em relação à greve de 3 de outubro contra a privatização da Sabesp, Metrô e CPTM em São Paulo apresentou dois momentos. Tradicionalmente, a mídia critica a greve e os grevistas responsabilizando os sindicatos, jogando a opinião pública contra os manifestantes. 

Esse foi o movimento observado pela cobertura da manhã, quando os grandes veículos, em dobradinha com o governador Tarcísio de Freitas, reforçavam os problemas enfrentados pela população que não pôde usar o trem e o metrô. Essa visão crítica também se estendia ao questionamento sobre a legitimidade da greve, colocando em discussão se o método escolhido era o mais apropriado para contestar a privatização.

O governador Tarcísio de Freitas foi onipresente nos principais veículos reforçando que as linhas privatizadas estavam funcionando de maneira eficiente e que a greve não se justificava. As declarações do governador foram amplamente repercutidas pela mídia sem contraponto, pelo menos na parte da manhã.

A grande imprensa fez o costumeiro papel de não se aprofundar em questões impactantes para a população se isso resultar em prejuízos políticos para a direita.

Quantos editoriais da grande mídia cobraram os 45 milhões pagos à consultoria IFC para preparar um relatório recomendando a privatização da Sabesp?  Quais veículos questionaram quando esse mesmo estudo recomendou usar o dinheiro da venda da empresa para abaixar a tarifa de água? Quanto dinheiro será usado? Quanto tempo essa estratégia vai perdurar?

Enquanto ignorou os questionamentos dos trabalhadores e trabalhadoras e as dúvidas da população, a imprensa reproduziu os termos usados pelo governador para se referir à greve como ilegal e abusiva. Vários veículos usaram as aspas do governador em manchetes reforçando uma narrativa de que as categorias em greve tinham motivação corporativa e político-partidária.

O tom da cobertura foi atravessado após a pane elétrica na linha 9, administrada por uma empresa privada. O incidente provocou um transtorno generalizado e tensão entre os usuários da linha. Naquele momento, os veículos de comunicação passaram a noticiar a pane e abrir espaço para a opinião dos sindicatos que lideraram a greve. 

Foi nítido que a cobertura favoreceu a narrativa do governo do Estado, porém, o lado dos trabalhadores e trabalhadoras ganhou algum espaço em veículos de massa como Folha de S.Paulo, Portal Uol, g1  e SPTV (TV Globo).

O jornalista José Luiz Datena, que tem forte influência na opinião das camadas populares, entrevistou dirigentes sindicais do saneamento, metrô e trem e ele próprio se declarou contra a privatização no atual contexto.

Desta vez, a mídia não conseguiu desqualificar – em sua totalidade – a luta dos trabalhadores e trabalhadoras. A população recebeu a greve como um alerta contra uma futura privatização de serviços que são essenciais na vida dos trabalhadores. Ganhou destaque o argumento de que água e o transporte público são direitos da população e que em todos os lugares onde esses serviços foram privatizados a tarifa aumentou e o serviço piorou.

De um modo geral, mais uma vez, a cobertura, especialmente da parte da manhã, mostrou o espectro político-ideológico dos grandes veículos de comunicação alinhados à centro-direita na desqualificação dos serviços públicos em favor da iniciativa privada.

*Anderson Guahy é coordenador do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé e Secretário de Comunicação e Imprensa da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB Nacional) e do Sindicato dos Trabalhadores em Água, Esgoto e Meio Ambiente do Estado de São Paulo (Sintaema)

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