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Por Fernanda Sabino
A morte da atriz potiguar Izabel Cristina de Medeiros, conhecida nacionalmente como Titina Medeiros, vítima de complicações de um câncer no pâncreas, provocou forte comoção no meio artístico, político e cultural do Rio Grande do Norte e do Brasil. Aos 48 anos, Titina teve a vida interrompida precocemente, deixando uma trajetória marcada pela potência criativa, pelo compromisso com a cultura popular e por personagens que ajudaram a renovar o teatro e a teledramaturgia brasileira. A notícia do falecimento, confirmada neste domingo (11), desencadeou uma série de homenagens que ressaltam não apenas o talento da atriz, mas também a dimensão humana de sua presença.
Reconhecida nacionalmente após interpretar a personagem Socorro, na novela Cheias de Charme (2012), da TV Globo, papel considerado um divisor de águas em sua carreira, Titina construiu uma trajetória sólida, que transita com naturalidade entre o teatro, o cinema e a televisão. Mesmo alcançando projeção nacional, manteve-se profundamente ligada às suas origens seridoenses e à cena cultural potiguar, atuando como referência para novas gerações de artistas.
Entre as manifestações mais emocionadas está a da atriz Cláudia Abreu, com quem Titina dividiu cenas em Cheias de Charme. Ao relembrar a parceria que ultrapassou os limites do set, Cláudia, que interpretou a personagem Chayene, destacou a intensidade da amizade construída ao longo do trabalho. “Titina, minha amiga, você é única. Nunca vai ter alguém como você. Te amei desde o primeiro momento. Viramos uma dupla, ficamos irmãs, rimos, nos divertimos muito dentro e fora de cena. Tínhamos tantos planos juntas… Celebro sua existência com todo o amor e com a alegria que você merece. Nunca vou te esquecer. Nunca”, escreveu. A atriz também estendeu o carinho à família e aos amigos da artista potiguar, mencionando nomes próximos e expressando o desejo de estar presente em Natal neste momento de dor.
A atriz Taís Araújo, que também contracenou com Titina na mesma novela, ressaltou a dimensão afetiva e simbólica da amiga. Em mensagem breve e poética, definiu a colega como representação do melhor da arte e do país. “Uma amiga minha se foi. Tanta alegria, tanta arte, tanto amor é o que fica”, escreveu. Para Taís, Titina simbolizava “o que eu gostaria que o Brasil fosse: só amor”, encerrando a despedida com a frase “Voa, voa, voa, brabuleta. Te amo pra sempre”.
A diretora Maria de Médicis, responsável pela condução de Cheias de Charme, também se manifestou, destacando o talento e a generosidade de Titina. Em poucas palavras, sintetizou a imagem deixada pela atriz: “Titina, você vai fazer muita falta. Grande atriz e uma pessoa espetacular. Sorriso eterno no rosto que agora a gente guarda no coração”.
O impacto da perda também foi profundamente sentido por artistas potiguares. A atriz Alice Carvalho, destaque do cinema nacional com o filme Cangaço Novo (2023) compartilhou um relato longo e emocionado, no qual revelou uma relação de afeto e aprendizado construída ao longo de cerca de duas décadas. Alice contou que conheceu Titina ainda criança, aos 8 anos, na casa dos tios, e que desde então passou a acompanhá-la de perto, assistindo a quase todas as suas peças e tendo nela uma referência absoluta.
No texto, Alice descreveu Titina como mestra encantada e amiga de todas as horas, responsável por conselhos, incentivos e apoio concreto, inclusive ensinamentos de voz e corpo. Relembrou um momento decisivo em sua trajetória, quando pensou em desistir da carreira diante da angústia da profissão. “Eu queria ser igual a Titina”, escreveu, afirmando que até hoje carrega essa influência na forma de atuar.
Entre as lembranças mais marcantes, citou o dia em que Titina pagou a gasolina para o que seria, em sua percepção, o último teste da carreira. Acompanhada por Titina e pelo produtor cultural Marcílio Amorim, Alice acabou sendo aprovada, assim como a própria Titina, em testes diferentes. “Minha vida mudou pra sempre”, afirmou. A única contracena pública entre as duas ocorreu justamente em Cangaço Novo, o que, segundo Alice, eternizou sua admiração. A homenagem foi encerrada com a frase: “Hoje o céu se abre em flor porque Isabel se encantou”


Repercussão em Acari
Na cidade onde Titina passou boa parte da vida, Acari, a comoção ganhou tom ainda mais pessoal. O prefeito Fernando Bezerra destacou o orgulho e o vínculo permanente de Titina com sua terra. “O mundo perde um pouco de seu brilho cada vez que uma artista segue para o horizonte que a fé nos faz enxergar”, afirmou, lembrando que, mesmo brilhando em todo o Brasil, ela nunca se afastou de sua família, de seu povo e de suas raízes. Para ele, Titina seguirá para sempre na memória da cidade.
“Ela sabia que fazer rir também é resistir”
No campo político, parlamentares potiguares também ressaltaram o compromisso da atriz com a cultura e com ideias progressistas. A deputada federal Natália Bonavides (PT) destacou a compreensão de Titina sobre a arte como forma de resistência e educação, lembrando sua atuação em defesa do Teatro Sandoval Wanderley. “Ainda sem acreditar na partida da nossa querida Titina Medeiros. Que dor. Hoje há uma pausa no riso e na alegria que ela espalhava por onde passava. Titina sabia que fazer rir também é resistir, que emocionar também é educar, que cultura é direito e não privilégio. Se o Teatro Sandoval Wanderley está aberto hoje, foi porque ela formou trincheira na defesa daquele patrimônio. O Rio Grande do Norte, como ela amava sua terra, e o Brasil perdem um dos seus maiores talentos. Aos familiares, amigos e fãs, deixo o meu abraço mais sincero.”
O deputado federal Fernando Mineiro (PT) definiu a atriz como referência cultural, afirmando que sua partida “arranca um pedaço” de todos que conviveram com ela.
A deputada estadual Isolda Dantas ressaltou o brilho da trajetória da artista, “de Acari para todo o Brasil”, enquanto as vereadoras Samanda Alves e Brisa Bracchi enfatizaram a identidade potiguar de Titina e a permanência de sua arte como legado e resistência. As homenagens, vindas de diferentes campos, desenham o retrato de uma artista cuja presença seguirá viva na memória coletiva.
