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Escrevo porque estamos vivas, e ninguém escreve por nós.
Eliane Potiguara
“O direito das mulheres e a injustiça dos homens”, da norte-rio-grandense Nísia Floresta, segue, na minha opinião, como a resposta mais contundente e politizada à situação de violência, exclusão, omissão crítica e desconsideração histórica que as mulheres viveram no Brasil no século XIX. Mas poucos sabem que, além de nossa primeira feminista, Nísia foi nossa primeira romancista. Foi ela quem inaugurou o gênero romance no RN.
Muita coisa mudou em Natal desde que essa potiguar publicou em 1850, no Rio de Janeiro, seu romance “Dedicação de uma amiga”. A cidade cresceu, deixou de ser pacata e vagarosa, recebeu os flagelados da seca que migraram para o litoral em busca de sobrevivência, enfrentou uma guerra mundial, testemunhou revoluções, os anos de chumbo da ditadura e prosseguiu com sua expansão até atingir o ritmo veloz e barulhento das cidades grandes.
Hoje, Natal escancara os dramas sociais ocultados por políticos do passado, que se valiam dos meios de comunicação deficientes para apresentar paisagens bucólicas onde supostamente não havia pobreza ou abandono. A tecnologia nos permitiu saber que nossa capital é multifacetada e que nunca possuiu a identidade enviesada que a elite alardeou em seus escritos.
Natal sempre foi e continua sendo conflituosa, excludente, marginalizada, metida a besta e rica. Também, pobre, talentosa, medíocre, preconceituosa, conservadora, progressista, fascista e doidivanas. Ela é linda e feia, cheirosa e fedida, limpa e suja, injusta e solidaria, hipócrita e sincera. Tudo isso ao mesmo tempo.
Potenciais escritoras de diferentes classes sociais, etnias e orientações sexuais nasceram e viveram em nossa capital desde os primórdios coloniais. Elas estiveram presentes nos momentos mais felizes, tristes e perigosos da cidade apelidada com o sugestivo nome de “Noiva do sol”. Certamente, as natalenses teriam muito o que contar sobre os costumes, paisagens e mudanças ocorridas ao longo do tempo. Mas onde estão essas mulheres? Morreram. E onde estão seus textos? Nunca foram escritos.
Desde 1930, quando Policarpo Feitosa (pseudônimo de Antônio José de Melo e Sousa) escreveu seu conhecido “Gizinha”, que os homens romanceiam o cotidiano do RN. Enquanto eles escreviam, suas contemporâneas morriam nas mãos dos parceiros, ou de parto, ou cozinhavam, bordavam, cuidavam dos filhos (seus e dos outros) e muito timidamente escreviam poemas, que ficavam restritos ao ambiente familiar.
No começo do século XX, poucas mulheres, como as saudosas Auta de Souza, Palmyra e Carolina Wanderley, se aventuravam a publicar o que compunham. Quando o faziam, abrilhantavam o circuito literário da capital com revistas como a “Via Láctea”, onde se publicava, além de poemas, prosa e “sciências”.
Mas, infelizmente, naquela época, na grande maioria das vezes, enquanto os homens pegavam em canetas, as mulheres seguravam vassouras. Enquanto os homens embalavam, orgulhosos, seus livros recém-publicados, as mulheres ninavam os filhos deles. Quando nossos ilustres escritores começaram a datilografar em suas reluzentes Olivettis, muitas mulheres ainda eram analfabetas aqui na terra de Câmara Cascudo (que não teve medo de convidar Palmyra e Carolina Wanderley para ocuparem duas cadeiras na então recém fundada Academia Norte-rio-grandense de Letras, em 1936).
O tempo varreu a cidade com grandes mudanças: aprendemos a ler, terminamos os estudos, fizemos faculdade, pós-graduação e desembestamos a escrever tudo o que nos viesse à telha, inclusive, romances. E vejam só: histórias açucaradas em que o mocinho salva a mocinha do caritó ficaram para trás. Nossas protagonistas vão ao inferno e voltam de lá segurando o cão pelos chifres.
Cânones literários são construções sociais. Isso significa que dependem de quem lê, publica, resenha, leciona e premia. Se as mulheres ficam de fora, isso sinaliza (falsamente) que não escrevem, ou que escrevem menos ou pior, e essa percepção retroalimenta a exclusão de editais, prateleiras, programas de leitura e salas de aula (quem não é visto, não é lembrado).
Além do viés histórico, há um viés crítico para essa situação: os critérios de superioridade estética ainda costumam privilegiar temas, espaços e estilos associados a autores homens. A ausência dos nomes de autoras em publicações que tratam da produção literária de um lugar, portanto, nunca é neutra.
Incluir mulheres não é gentileza, é correção de método: consultar bibliografias locais, ouvir bibliotecárias, professoras e leitoras complementa o exercício da crítica literária. E nada impede que se aplique o mesmo rigor literário reservado às obras ilustres. As mulheres nunca temeram comparações. Lutam apenas pelo direito de serem lidas e consideradas.
Para contribuir com essa pauta tão relevante e relegada, coloco aqui uma lista básica de autoras nascidas no RN ou fortemente vinculadas ao estado, com pelo menos um romance publicado. O mapeamento é certamente limitado. Peço desculpas por alguma omissão porque a tarefa exige uma envergadura que não tenho por não ser uma pesquisadora do tema:
- Nísia Floresta: Dedicação de uma amiga (1850, Typographia Fluminense de Lopes & Cia);
- Nivaldete Ferreira: Memórias de Bárbara Cabarrús (2008, Capitania das Artes);
- Clotilde Tavares: De repente para a vida termina (2019, Escribas);
- Maria Dolores Wanderley: Baracho (2018, Editora Lacre), Bianca Natividade (2022, Editora Circuito), A história de Doralice (2023, Editora Circuito);
- Tereza Custódio: O baú de Filomena (2021, CJA Editora) com 2ª edição em 2023;
- Almira Dantas: O voo da pequena Assum (2019, editor);
- Jeanne Araújo: Cercas de Pedras (2020, Editora Penalux) e Combustão (romance epistolar escrito em parceria com o escritor Cefas Carvalho);
- Ana de Santana: As faxineiras sabem de tudo (2021).
- Eva Potiguara: Os herdeiros da Jurema(2024);
- Ana Cláudia Trigueiro: Francisca (2015, editor), O mistério do Verde Nasce (2019, editor), As rãs que cantavam como passarinho (2022, Timbú Editora), O chamado da Serra do Feiticeiro (2023, Timbú Editora), A ilha dos lobos (2024, Timbú Editora);
Que santa Nísia Augusta Floresta Brasileira, defensora perpétua das mulheres, seja por nós! Que dona Militana sopre-nos, do seu cachimbo etéreo, as fumaças da resistência. Que Madalena Antunes, Zila Mamede, Nati Cortez, Palmira, Carolina e Auta de Souza sejam nossas guias na luta contra a precarização da memória literária feminina. Seguimos vivas, atuantes e destemidas.
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