Presidenta do PT, Samanda reage a ameaças a candidatas: “Não vamos recuar”

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As ameaças contra três mulheres do PT no Rio Grande do Norte fizeram a violência política de gênero voltar ao centro do debate eleitoral no estado. A vereadora de Natal e candidata a deputada federal Brisa Bracchi, a deputada federal e candidata à reeleição Natália Bonavides e a candidata a deputada estadual Juliana Garcia denunciaram episódios de violência e intimidação. Em comum, ataques dirigidos não apenas à atuação política das três, mas também ao fato de serem mulheres que ocupam ou disputam espaços de poder.

Presidenta estadual do PT e candidata ao Senado, com o nome registrado na Justiça Eleitoral como “Samanda de Lula“, Samanda se manifestou neste domingo (6) e classificou as ameaças como uma tentativa de retirar mulheres da disputa política pelo medo.

“Mulheres do meu partido estão sendo ameaçadas de morte, de violência sexual, de estupro corretivo e esquartejamento. São ameaças graves, extensivas aos seus familiares, são ameaças covardes que têm como objetivo nos amedrontar e nos retirar da disputa política”, afirmou.

Na manifestação, Samanda dirigiu sua solidariedade nominalmente a Brisa, Natália e Juliana e afirmou que o PT vai cobrar investigação, responsabilização dos autores e proteção às mulheres ameaçadas.

“Como presidenta do PT, eu não vou aceitar que nenhuma mulher, em especial as que estão candidatas, sejam intimidadas ou ameaçadas. O PT vai cobrar investigação, a responsabilização dos criminosos e a proteção às nossas mulheres”, disse.

A resposta de Samanda não se limita à solidariedade. Ela afirma que a reação às ameaças será justamente a permanência das mulheres na política.

“Vocês sabem como é que nós vamos responder: incomodando ainda mais, ocupando ainda mais os lugares, enfrentando os misóginos, os machistas, porque nenhuma ameaça vai nos fazer recuar”, declarou.

Ameaças chegaram às candidatas

O caso mais recente divulgado publicamente envolve Brisa Bracchi. A vereadora de Natal e candidata a deputada federal recebeu, em 1º de setembro, mensagens enviadas para seus endereços de e-mail pessoal e institucional com ameaças de violência sexual e morte. Segundo nota divulgada pelo mandato, uma segunda mensagem continha dados pessoais e informações sigilosas de familiares da parlamentar.

O material foi preservado e encaminhado à Polícia Civil, que iniciou a investigação. O Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Norte (TRE-RN) também foi comunicado por meio da Ouvidoria da Mulher. De acordo com o mandato, o Ministério Público Eleitoral encaminhou o caso à Polícia Federal. O Ministério das Mulheres também foi informado.

A ameaça, segundo a equipe de Brisa, apresentava motivação relacionada à orientação sexual da vereadora e à sua condição de mulher em posição de poder. O mandato afirmou que a parlamentar continuará exercendo o mandato na Câmara Municipal de Natal e a campanha para deputada federal, adotando medidas para preservar sua segurança e a de seus familiares.

Natália Bonavides também denunciou ter recebido uma mensagem com ameaças de violência sexual e esquartejamento. Segundo a deputada, o conteúdo trazia detalhes sobre os crimes e informações pessoais de pessoas próximas a ela e à família. As provas foram entregues às autoridades.

A deputada afirmou que não é a primeira vez que sofre esse tipo de violência. Em 2024, segundo seu relato, recebeu uma ameaça de morte e já havia sido alvo de manifestações públicas com ameaças de violência. Para Natália, os episódios não podem ser tratados como parte normal do debate político e configuram violência política de gênero.

Juliana Garcia também se manifestou após Brisa ser ameaçada. Em nota de solidariedade, afirmou que a vereadora havia estado ao seu lado no dia anterior, diante dos ataques que ela própria vinha enfrentando, e classificou a ameaça contra Brisa como mais uma tentativa de afastar mulheres dos espaços de poder.

“Exijo que os nossos casos sejam devidamente apurados e punidos ao rigor da lei”, afirmou Juliana.

Não é novo e não é “parte da política”

A violência contra mulheres que ocupam espaços políticos não é um fenômeno novo nem restrito a um partido ou a uma eleição. O Tribunal Superior Eleitoral reconhece entre as formas de violência política de gênero as ameaças, perseguições, constrangimentos, assédio e violência sexual. Desde 2021, a prática é enquadrada pela legislação brasileira, e o Código Eleitoral prevê crime para quem assedia, constrange, humilha, persegue ou ameaça candidata ou mulher detentora de mandato com o objetivo de impedir ou dificultar sua campanha ou atuação política.

Um estudo divulgado pelo TSE em 2026, com base em notícias sobre as eleições municipais de 2020 e 2024, identificou que a violência política contra mulheres ocorre em todo o país e aumenta com a proximidade das eleições. A pesquisa também aponta que manifestações simbólicas e psicológicas são frequentemente naturalizadas, apesar de integrarem o conjunto de práticas usadas para constranger e afastar mulheres da política.

Outro levantamento, do Observatório Nacional da Mulher na Política da Câmara dos Deputados, analisou 62 processos judiciais relacionados à violência política de gênero e raça entre 2021 e 2025. A violência psicológica e simbólica apareceu em todos os casos analisados, enquanto ameaças e intimidações foram identificadas como mecanismos para constranger, inibir ou afastar mulheres de sua atuação política.

A própria Câmara dos Deputados define como violência política contra mulheres práticas que tenham como objetivo ou resultado limitar, impedir ou deslegitimar sua participação na vida política. Entre os exemplos estão ataques verbais, desmoralização, assédio, ameaças e perseguição.

“Nenhuma espada corta”

Ao comentar os ataques, Samanda escolheu uma referência à resistência para encerrar sua mensagem.

“Brisa Bracchi, Natália Bonavides, Juliana Garcia, a vocês toda minha solidariedade, toda minha força e toda minha luta. Nós somos como a haste fina: qualquer brisa verga, mas nenhuma espada corta. Sigamos.”

A frase retoma o poema “Assim como a cigarra”, de autoria de João Cabral de Melo Neto, popularizado na canção “Aos nossos filhos”, de Ivan Lins e Vitor Martins, e frequentemente associado à ideia de resistência.

A governadora Fátima Bezerra também se manifestou sobre os ataques e afirmou ter determinado à Secretaria de Segurança Pública as providências necessárias para investigação e proteção das vítimas. “No Rio Grande do Norte, não há espaço para a violência política de gênero, para a intimidação ou para qualquer ameaça contra quem exerce legitimamente seu mandato”, declarou.

Cadu de Lula, candidato do PT ao Governo do Estado, também prestou solidariedade a Brisa e Natália e defendeu a identificação e responsabilização dos autores das ameaças.

Para Samanda, entretanto, a resposta das mulheres não será o afastamento da política.

“Eles querem que tenhamos medo e que deixemos de ocupar os espaços de decisão”, afirmou. “Mas o efeito é exatamente o contrário.”

Em ano eleitoral, a disputa por espaço político também expõe uma realidade que ultrapassa o debate entre candidaturas: para muitas mulheres, ocupar um lugar de poder ainda significa enfrentar uma violência que tenta transformar sua presença pública em motivo para ameaça.

É justamente contra esse mecanismo que Samanda encerrou sua manifestação: “Nenhuma ameaça vai nos fazer recuar”.

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