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Por Cleber Lourenço
A Polícia Federal investiga pichações de suásticas e outros símbolos nazistas na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Rio Grande do Sul, em meio a uma sequência de ataques e intimidações contra estudantes e professores de instituições de ensino superior pelo país. Os investigadores pretendem analisar imagens de câmeras de segurança e ouvir testemunhas para identificar os responsáveis. O caso ocorre em um cenário de invasões, agressões e destruição de manifestações políticas, algumas delas praticadas por candidatos e parlamentares ligados ao bolsonarismo.
O caso da UFSM integra um levantamento publicado nesta quarta-feira (21) pelo jornalista Vinicius Segalla, do Diário do Centro do Mundo (DCM), que reuniu episódios de invasões, vandalismo, ameaças e agressões em sete universidades brasileiras.
As novas pichações foram encontradas na manhã de terça-feira (20), no diretório acadêmico do curso de Geografia. Além dos símbolos nazistas, estudantes perceberam que adesivos com manifestações políticas haviam sido retirados e que uma bandeira LGBTQIA+ havia desaparecido do local.
A investigação está sob responsabilidade da Polícia Federal, que foi acionada após a descoberta. Segundo o delegado Carlos Feijó, imagens do circuito de segurança serão examinadas e testemunhas deverão prestar depoimento. Até o momento, não há identificação pública dos autores.
O episódio não é isolado dentro da própria universidade. No início de outubro, pelo menos seis símbolos associados ao nazismo já haviam sido encontrados em diferentes prédios da UFSM. Entre eles estava a runa Odal, símbolo apropriado pelo regime nazista e posteriormente utilizado por organizações neonazistas.
A universidade repudiou as manifestações e informou que os novos acontecimentos serão incorporados aos procedimentos administrativos abertos para apurar as responsabilidades.
Levantamento revela ataques em sete universidades
A reportagem de Segalla mostra que, em parte dos episódios, as ações tiveram como alvo manifestações estudantis contrárias à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Alguns ataques contaram com a participação identificada de políticos e candidatos de direita.
Na Universidade Federal de Roraima (UFRR), por exemplo, o deputado estadual Marcinho Belota (PL-RR) e a influenciadora Athaally Albuquerque, suplente de deputada federal pelo Republicanos, entraram no Centro Acadêmico de Direito na sexta-feira (16). Durante a ação, materiais produzidos por estudantes com críticas a Flávio Bolsonaro foram rasgados.
A instituição classificou o episódio como invasão e depredação e anunciou medidas administrativas e judiciais.
No dia seguinte, segundo informações reunidas pelo DCM, cinco homens, um deles armado, entraram em espaços da universidade, destruíram materiais e interromperam uma aula de sociologia.
Em Alagoas, cerca de dez homens chegaram ao campus de Arapiraca da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), no dia 8 de outubro, em veículos com propaganda eleitoral de Flávio Bolsonaro. O grupo teria entrado em salas de aula, destruído cartazes contrários ao candidato e intimidado uma professora.
Na Universidade Federal da Bahia (UFBA), o deputado estadual Diego Castro (PL-BA) se envolveu em um episódio de invasão e confronto com estudantes. A Justiça posteriormente impôs restrições à atuação do parlamentar em determinados equipamentos públicos.
O levantamento também identificou episódios na Universidade de Brasília (UnB), na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), envolvendo depredação, retirada de cartazes, agressões relatadas por estudantes e invasões de espaços acadêmicos.
Embora os casos apresentem semelhanças, não há comprovação de que tenham sido organizados por uma mesma estrutura ou coordenados nacionalmente. No caso específico das pichações nazistas na UFSM, a autoria permanece desconhecida.
PGR também apura ameaças e intimidações
A escalada de conflitos levou a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão, vinculada à Procuradoria-Geral da República (PGR), a abrir um procedimento para mapear ameaças e intimidações contra estudantes de universidades e institutos federais.
A iniciativa é conduzida pela subprocuradora-geral da República Paula Bajer Fernandes e busca identificar possíveis violações à liberdade de expressão e ao direito de manifestação política no ambiente acadêmico.
Nas redes sociais, também se multiplicam relatos de intimidação política em universidades, acompanhados de fotografias e vídeos que mostram cartazes destruídos, pichações, confrontos e invasões de espaços estudantis. As publicações ajudam a dimensionar a repercussão dos episódios e registram denúncias de estudantes e professores, embora a autoria e as circunstâncias de cada ocorrência dependam de apuração individual.
A Justiça Federal também precisou intervir em outro episódio envolvendo entidades estudantis. Após uma ação do Ministério Público Federal contra a Meta, foi determinado o restabelecimento de perfis de organizações ligadas à UFRGS e à Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), bloqueados após publicações políticas.
A decisão estabeleceu multa diária de R$ 10 mil em caso de descumprimento e considerou que a suspensão das contas, sem justificativa adequada, comprometia a liberdade de expressão das entidades.
Com a investigação da PF em Santa Maria e o procedimento aberto pela PGR, as autoridades terão de esclarecer não apenas a autoria dos ataques, mas também se existem conexões entre os episódios registrados nas universidades.
A participação de parlamentares e candidatos em parte das ocorrências acrescenta uma dimensão eleitoral ao problema. Em diferentes instituições, manifestações contrárias a Flávio Bolsonaro foram destruídas ou interrompidas, justamente durante a reta final da disputa presidencial.
