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NICOLA PAMPLONA E VINICIUS SASSINE
RIO DE JANEIRO, RJ E BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – A Petrobras anunciou nesta sexta-feira (14) que identificou a presença de hidrocarbonetos em um poço exploratório na bacia sedimentar da Foz do Amazonas, em águas ultraprofundas na costa do Amapá.
Embora a confirmação ainda dependa de testes, integrantes da estatal dizem que a probabilidade de que se trate de petróleo é alta.
Segundo a companhia, a descoberta foi constatada por meio de perfis elétricos e de indicativos identificados nas rochas. A perfuração do poço ainda está em andamento, e a estatal afirma que as operações têm como objetivo dar continuidade à avaliação exploratória da área.
“Nosso otimismo em relação à margem equatorial se confirma hoje”, disse, em nota, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard.
A executiva disse à Reuters que a descoberta ainda não é comercial, mas significa um passo adiante na busca pela reposição de reservas a partir de 2034-2035, quando o pré-sal deve atingir seu pico de produção e começar a declinar. “Vamos continuar os trabalhos lá para ver a comercialidade”.
A presença de hidrocarbonetos não garante que há um reservatório comercial de petróleo ou gás. A avaliação geralmente demanda a perfuração de outros poços para delimitar as reservas.
A Petrobras, o governo e petroleiras privadas com atuação no país enxergam a região como a principal fronteira para novas descobertas de petróleo no Brasil, ajudando a repor o declínio das reservas do pré-sal, hoje a principal área produtora.
Em nota, o IBP (Instituto Brasileiro do Petróleo), que representa grandes petroleiras com atuação no Brasil, como a própria Petrobras, ExxonMobil, TotalEnergies, Shell e Equinor, disse que a descoberta “confirma que o Brasil possui perspectivas muito positivas para a produção de petróleo e gás natural em outras regiões, reforçando a segurança energética nacional no médio e longo prazo”.
O poço Morpho está localizado a cerca de 175 km da costa do estado, em uma área com lâmina d’água (distância entre a superfície e o fundo do mar) de 2.886 metros. A região é alvo de embates entre o governo e organizações ambientalistas.
A descoberta ocorreu no bloco FZA-M-59, na margem equatorial brasileira, onde a Petrobras é operadora e detém 100% de participação.
“As operações de perfuração permanecem em curso, visando a continuidade da avaliação exploratória, de forma segura e com respeito ao meio ambiente e às pessoas”, disse a empresa em comunicado.
O setor passou a apostar no potencial da região após descobertas de petróleo na Guiana, que tem características geológicas semelhantes às da margem equatorial brasileira.
A Petrobras afirmou que a atuação no bloco faz parte de sua estratégia de recomposição das reservas de petróleo e gás por meio da exploração em áreas de fronteira. Segundo a companhia, a iniciativa busca contribuir para o atendimento da demanda nacional de energia durante a transição energética.
O bloco FZA-M-59 foi adquirido pela Petrobras na 11ª Rodada de Licitações da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis), realizada em 2013, sob o regime de concessão.
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), comemorou a descoberta. “Lutamos pelo direito de pesquisar a margem equatorial e conhecer as nossas riquezas. Lutamos para que, sendo possível a exploração, essa riqueza seja transformada em emprego, renda, oportunidades e qualidade de vida para o povo amapaense e contribua para o desenvolvimento do Brasil”, disse, em nota.
A perfuração de Morpho teve um dos mais conturbados processos de licenciamento ambiental do país, com idas e vindas e atropelos sobre a área técnica do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis), que chegou a recomendar o arquivamento do processo.
O instituto finalmente concedeu a licença em outubro de 2025, sob pressão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O documento foi emitido às vésperas da COP30, em Belém, e entrou na mira de organizações presentes ao evento.
Para ambientalistas, a abertura de novas fronteiras para a produção de petróleo contraria alertas de cientistas sobre a necessidade de reduzir a queima de combustíveis fósseis para enfrentar a mudança climática.
O governo defende que o Brasil não pode abrir mão de explorar as riquezas de seu subsolo. Na COP, dois meses após autorizar a perfuração, Lula propôs, sem sucesso, a aprovação de medidas para reduzir o consumo de fósseis.
O Morpho é o primeiro do bloco 59 a ser prospectado pela estatal, que já solicitou ao Ibama, responsável pelo licenciamento, a perfuração de mais três poços na mesma área: PAD-Morpho, Manga e Crotalus.
No caso desses três poços a mais, o órgão ambiental federal solicitou mais dados antes de dar uma autorização. Os documentos do licenciamento mostram que o Ibama não se opôs, até agora, à extensão da exploração em busca de petróleo nessa parte da costa amazônica.
Na semana passada, a estatal divulgou resultados referentes ao primeiro trimestre completo sob efeito da alta do petróleo após o início da guerra no Irã. O lucro líquido foi de R$ 52,4 bilhões, quase o dobro (97% a mais) em relação ao mesmo trimestre do ano anterior. Foi o melhor resultado desde o segundo trimestre de 2022, em meio ao conflito na Ucrânia.
Pelo desempenho, a Petrobras anunciou a distribuição de R$ 17,4 bilhões em dividendos a seus acionistas. O governo federal, acionista majoritário, terá direito a R$ 6,2 bilhões, incluindo fatias de bancos públicos e fundos de pensão.
O resultado da Petrobras no trimestre foi puxado pela alta do petróleo e pelo recorde de produção de petróleo e gás. A cotação média do Brent subiu 54,1% em relação ao mesmo trimestre do ano anterior, para US$ 104 por barril. A produção aumentou 14%, para 3,34 milhões de barris de óleo equivalente por dia.
Em julho, a Petrobras comunicou o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) que fará um abandono permanente do poço Morpho, e não um abandono temporário, quando é possível retomar a um poço para extração de óleo.
Especialistas dizem que o abandono permanente de um primeiro poço explorado é uma prática que costuma ser adotada, pois a retirada de óleo costuma ocorrer nos poços seguintes.
Na terça-feira (11), em resposta a questionamentos da reportagem, a Petrobras afirmou que “abandono de poço” é um termo técnico e uma operação padrão, e “não tem qualquer relação com o resultado sobre a ocorrência ou não de petróleo”.
Segundo a estatal, a perfuração de mais três poços dependerá da análise sobre o que for encontrado no Morpho.
LINHA DO TEMPO
out.20
Petrobras é autorizada a assumir a operação do chamado bloco 59, na altura de Oiapoque (AP), na bacia Foz do Amazonas
2022
Modelagens feitas pela estatal indicam que, em caso de acidente, um eventual vazamento de óleo não impactaria a costa brasileira, mas países mais ao norte, inclusive no Caribe
mai.23
Ibama nega licença para perfuração exploratória em poço no bloco 59, e Petrobras recorre
2024
Expectativa por empreendimento amplia fluxos migratórios a Oiapoque (AP), com consequente expansão de invasões na cidade
out.25
Ibama concede licença de operação para Petrobras perfurar o poço Morpho em busca de óleo na costa amazônica
jan.26
Um acidente na perfuração provoca vazamento de fluidos. Estatal é multada em R$ 2,5 milhões pelo Ibama, e prospecção é interrompida por um mês
fev.26
Perfuração é retomada na área do bloco 59
jun.26
Ibama cobra mais dados sobre pedido da Petrobras para perfurar mais três poços no mesmo bloco
jul.26
Estatal comunica que primeiro poço terá abandono permanente, e deixa em aberto o que será feito em relação aos próximos poços previstos para exploração
ago.26
Petrobras comunica descoberta de hidrocarbonetos na área perfurada no bloco 59
Leia Também: Samarco registra prejuízo líquido de US$ 328,5 milhões no 2º trimestre de 2026
