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A primeira mastectomia masculinizadora realizada pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em Natal marca um novo capítulo no atendimento à população trans da capital potiguar. Mais do que a estreia de um procedimento cirúrgico na rede municipal, o momento representa a abertura de um caminho que, até então, obrigava homens trans a buscar alternativas em outros estados ou recorrer a procedimentos particulares de alto custo.
Nesta segunda-feira (20), dois pacientes passaram pela cirurgia no Hospital Saúde de Todos. Outros dois procedimentos já estão agendados para o próximo dia 27. A expectativa é que a mastectomia masculinizadora passe a integrar de forma permanente a rede pública de saúde da cidade, ampliando o acesso de pessoas trans a um dos procedimentos mais demandados dentro do Processo Transexualizador.
A mastectomia masculinizadora, também conhecida como cirurgia de masculinização torácica, consiste na retirada do tecido mamário e na remodelação do tórax para conferir uma aparência mais compatível com a identidade de gênero masculina. Para muitos homens trans, o procedimento representa uma etapa fundamental na afirmação de gênero, reduzindo episódios de disforia, desconforto físico e impactos na saúde mental.
Embora a cirurgia já seja oferecida em alguns centros especializados do país, a iniciativa coloca Natal entre as cidades brasileiras que passaram a disponibilizar o procedimento pelo SUS. O diferencial local é que a ação foi estruturada a partir do Ambulatório Transexual e Travesti (TT), serviço que acompanha usuários em todas as etapas do cuidado, desde o acolhimento inicial até o pós-operatório.
Atualmente, cerca de 70 pacientes acompanhados pelo ambulatório já atendem aos critérios clínicos necessários para realizar a cirurgia, segundo a equipe. A seleção considera fatores como acompanhamento regular pela equipe multiprofissional, exames laboratoriais e de imagem atualizados, terapia hormonal em andamento e condições de saúde adequadas para o procedimento.
Segundo a coordenação do serviço, os pacientes continuam recebendo assistência após a cirurgia, incluindo acompanhamento médico, psicológico, curativos especializados e monitoramento da recuperação.
Um dos primeiros beneficiados foi Theo Henrique, acompanhado pelo Ambulatório TT desde 2021. Ele relata que utilizava faixas compressoras para esconder o volume das mamas, prática comum entre homens trans, mas que pode causar dores, dificuldades respiratórias e outros problemas físicos.
“Para mim, é importante porque eu preciso me sentir bem. Eu sou casado e as minhas mamas me causam uma certa frustração; acabo me comparando muito com outras pessoas. Então, esse momento é de muita realização para mim. Não é nem de um sonho, é além, é para ser, para estar e para existir”, afirmou.
A emoção também marcou a trajetória de Lorenzo Leão, gerente comercial e estudante de Direito, que recebeu a confirmação de que faria a cirurgia justamente no dia do aniversário.
“Foi como um presente para mim estar prestes a fazer essa cirurgia e realizar esse sonho. Eu acho que vai ser a virada de chave para realmente me olhar no espelho e me reconhecer de fato, o que eu sou. Algo para completar esse cara que eu sempre sonhei que seria. Estou muito feliz”, disse.
A realização das primeiras cirurgias também abre perspectiva para a ampliação do acesso ao procedimento nos próximos meses. A intenção é que as futuras vagas sejam ofertadas regularmente por meio da Central Municipal de Regulação, permitindo que novos pacientes acompanhados pelo Ambulatório TT sejam encaminhados conforme a fila e os critérios clínicos.
O Ambulatório Transexual e Travesti de Natal atualmente tem mais de 300 usuários em acompanhamento hormonal, principalmente para administração de testosterona. Além da terapia hormonal, o serviço oferece atendimento médico, psicológico, de enfermagem e assistência social voltados à população trans.
Com as primeiras cirurgias realizadas e outras já agendadas, Natal passa a integrar o grupo de cidades que oferecem, dentro do SUS, uma etapa considerada essencial por muitos homens trans no processo de construção da própria identidade e autonomia sobre seus corpos.
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