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Por Maria Virgínia Lopes*
Não tente agradar a todo mundo. Muitas vezes, a insatisfação está dentro das próprias pessoas e na forma como elas escolheram enxergar o mundo.
Defender o governo Lula, para mim, vai muito além de defender um governo. É uma opção pela democracia, pela soberania nacional e pela liberdade. E não podemos fechar os olhos para algo muito maior que qualquer eleição: tudo isso pode ser perdido.
Também não podemos ignorar a retomada de programas sociais, dos investimentos públicos e de obras estruturantes para o país e, especialmente, para o Nordeste — segurança hídrica, a transposição do Rio São Francisco, a Transnordestina, a duplicação da BR-304 e tantos outros investimentos que interferem concretamente na vida das pessoas.
Dizem que temos um problema de comunicação. E temos.
Mas talvez o problema seja ainda maior. Coloque um texto nas redes sociais e poucos irão ler. Coloque uma fotografia bonita, uma vida perfeita, um cenário produzido, e veja a reação.
Estamos desaprendendo a ler o mundo.
Passamos a consumir pequenas notícias, frases soltas, vídeos de poucos segundos e fake news produzidas justamente para influenciar nossa percepção da realidade. E, pouco a pouco, começamos a acreditar que fazemos parte daquele mundo que aparece na tela: bonito, rico, feliz e sem contradições.
Só esquecemos de olhar ao redor.
A realidade continua mostrando uma sociedade profundamente desigual, na qual a pobreza se concentra de um lado e uma riqueza cada vez maior se acumula nas mãos de poucos.
Basta observar o que vem acontecendo até mesmo nos chamados países desenvolvidos. O crescimento da intolerância contra imigrantes mostra que muitos que acreditavam fazer parte daquela sociedade descobriram, da pior maneira, que o mundo nunca foi igual para todos.
Talvez por isso seja tão importante voltar a ler. Ler livros, ler história, ler opiniões diferentes — mas, sobretudo, ler a realidade.
Como não dispomos de uma comunicação de grande alcance capaz de disputar diariamente essa narrativa, resta-nos também escrever, conversar, argumentar e provocar reflexão.
Embora eu quase tenha esquecido: talvez fosse melhor colocar apenas uma fotografia bonita. Quem sabe até uma imagem produzida por inteligência artificial, perfeita, sem rugas, sem pobreza, sem conflito, sem realidade. Afinal, esse é também o mundo artificial que estamos ajudando a cultivar.
Mas prefiro continuar escrevendo.
E volto à velha provocação atribuída a Joãozinho Trinta: “Quem gosta de pobreza é intelectual; pobre gosta é de luxo.”
A frase carrega a provocação — e também os preconceitos de seu tempo. Mas serve para uma reflexão atual: defender políticas sociais, redução das desigualdades, educação pública, saúde, direitos dos trabalhadores e soberania nacional não pode ser tratado como coisa de pobre ou de intelectual.
É uma escolha de sociedade.
Porque democracia não é fotografia bonita. Soberania não cabe em um vídeo de poucos segundos. E liberdade não é algo que percebemos apenas quando a perdemos.
Talvez esteja justamente aí o nosso maior desafio: voltar a enxergar o mundo real antes que o mundo artificial nos convença de que fazemos parte de uma festa para a qual, na verdade, nunca fomos convidados.
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* Maria Virgínia Ferreira Lopes é economista
