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Mais de quatro décadas depois de estrear na programação da TV Universitária do Rio Grande do Norte, o Memória Viva continua encontrando novas formas de chegar ao público. A prova mais recente veio da internet: o episódio que abriu a nova temporada do programa, com o cantor e compositor Raimundo Fagner, ultrapassou 46,8 mil visualizações no YouTube em apenas uma semana, tornando-se o mais assistido da história da atração na plataforma.
Para o jornalista e professor da UFRN Ciro Pedroza, que atualmente apresenta o programa, o alcance do episódio reforça a relevância de um projeto dedicado a preservar histórias e trajetórias que ajudam a contar a identidade potiguar.
“Foi uma marca histórica, que só aumenta nossa responsabilidade em fazer um programa com tanta tradição”, afirma em entrevista à Agência Saiba Mais.
Confira:
Durante cerca de uma hora de conversa, Fagner revisitou momentos marcantes da carreira, falou sobre a relação construída ao longo dos anos com o Rio Grande do Norte e relembrou personagens que fizeram parte dessa trajetória. Entre eles estava o produtor cultural Chico Miséria, figura conhecida na cena artística potiguar e falecido em 2023.
“Chico foi um grande visionário. Ele atraía as pessoas e os artistas. Todo mundo queria vir a Natal por conta dele”, recordou o cantor.
O artista também revelou que sua primeira composição nasceu justamente em uma viagem rumo ao estado. A canção Claro Dia de Serra foi escrita durante o percurso entre Fortaleza e São Miguel, no Alto Oeste potiguar, enquanto atravessava a região da Serra de Pereiro, no Ceará.
Aos 76 anos, prestes a completar 77 em outubro, Fagner falou ainda sobre o tempo, os cuidados com a saúde e o desejo de continuar nos palcos. Contou que abandonou o cigarro para seguir cantando da melhor forma possível. Ao ser questionado sobre como gostaria de ser lembrado, respondeu que espera deixar a imagem de alguém reconhecido pela voz e por uma história construída ao lado de muitas pessoas.
Segundo Ciro Pedroza, o sucesso do episódio está ligado não apenas à dimensão artística de Fagner, mas também à força de sua trajetória pessoal.
“Fagner é um ídolo que atravessou várias gerações e um personagem de uma trajetória lindíssima. Independentemente das polêmicas políticas, ele é um grande cantor e tem muito mais proximidade com o Rio Grande do Norte do que as pessoas imaginam. A história dele é muito rica e o depoimento emociona”, avalia.
Criado em 1980, o Memória Viva se consolidou como um dos programas mais longevos da televisão potiguar. Ao longo de sua história, passou por diferentes fases e apresentadores, entre eles Carlos Lyra, Tarcísio Gurgel e, atualmente, Ciro Pedroza. Em pesquisa de pós-doutorado desenvolvida na UFRN, o jornalista levantou que, entre 1980 e 2025, foram produzidos 684 programas.
Pelo estúdio do Memória Viva passaram nomes que ajudaram a moldar a história política, cultural e social do Rio Grande do Norte e do Brasil. Entre eles estão os ex-governadores Aluízio Alves e Dinarte Mariz, o educador Paulo Freire e o líder comunista Luís Carlos Prestes.
Para Pedroza, a essência da atração permanece a mesma desde a estreia: revelar histórias de pessoas que ajudaram a construir o estado, mas que nem sempre recebem o reconhecimento público que merecem.
“É um espaço democrático para preservação e revelação das histórias de pessoas que contribuíram para que sejamos os potiguares que nos tornamos. Muitas vezes são personagens que passam por nós na rua e a gente não conhece. O Memória Viva é um lugar de reconhecimento da história e da vida dessas pessoas”, afirma.
Nos últimos anos, o programa passou por adaptações. A pandemia levou a equipe a substituir os debatedores presenciais por depoimentos gravados exibidos durante as entrevistas. Ao mesmo tempo, a atração ampliou sua presença para além da televisão, com transmissão simultânea pelo YouTube e uma versão radiofônica exibida pela FM Universitária.
A estratégia ajudou a aproximar novas gerações de um programa tradicional e a ampliar seu alcance para além das fronteiras do estado. O recorde alcançado pelo episódio com Fagner, acredita Pedroza, é mais um sinal de que a memória continua despertando interesse quando encontra novos caminhos para ser contada.
A nova temporada do Memória Viva terá ainda episódios dedicados a personagens como a rendeira Vó Maria, da Vila de Ponta Negra, e o sanfoneiro Roberto do Acordeon. O programa vai ao ar às terças-feiras pela TV Universitária e pela Uern TV, em Mossoró, além de ser retransmitido às quintas-feiras pela FM Universitária.
SAIBA MAIS:
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