Impulsionadas por Lula, cisternas beneficiam famílias do semiárido há 23 anos

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A possibilidade de ter água perto de casa muda a rotina de quem vive no semiárido potiguar. Em períodos de estiagem, quando a chuva demora a chegar e o abastecimento depende de carros-pipa ou de fontes distantes, uma cisterna pode garantir água para beber, cozinhar e realizar tarefas domésticas durante meses. É nesse contexto que o Programa Cisternas se consolidou como uma das principais políticas públicas de convivência com a seca no Nordeste.

No Rio Grande do Norte, a construção desses reservatórios faz parte de uma trajetória que antecede a atual etapa de investimentos do governo estadual. Em 2000, o Serviço de Apoio aos Projetos Alternativos Comunitários (SEAPAC) implantou sua primeira cisterna na comunidade de Caieira, em São João do Sabugi, no Seridó potiguar. A iniciativa integrou um processo mais amplo de mobilização social para garantir acesso à água às famílias rurais.

Em 2003, o Governo Lula estabeleceu o Programa Cisternas como política pública, inspirado na experiência do Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC), criado pela Articulação Semiárido Brasileiro (ASA). A proposta era substituir a lógica de enfrentamento emergencial à seca por ações permanentes de convivência com as condições climáticas da região, com participação das próprias comunidades na construção e na gestão dos reservatórios.

Desde então, a política passou a combinar financiamento público, atuação de organizações sociais e mobilização comunitária. As cisternas de placas destinadas ao consumo humano têm capacidade para armazenar 16 mil litros de água da chuva, captada por calhas instaladas nos telhados. Em condições adequadas de uso, o volume pode atender uma família por até oito meses de estiagem.

Uma política que atravessa gerações

A dimensão dessa política pode ser observada nos números acumulados ao longo dos anos. Segundo o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), cerca de 1,2 milhão de famílias foram beneficiadas em todo o país desde 2003. No Rio Grande do Norte, o SEAPAC informa ter implantado mais de 21 mil cisternas ao longo de sua atuação, com impacto sobre aproximadamente 22 mil famílias, conforme os dados divulgados pela organização.

Os números estaduais precisam ser considerados de acordo com o alcance de cada levantamento. O total do SEAPAC corresponde à atuação da entidade, enquanto os registros do Programa Cisternas abrangem diferentes executores e modalidades de tecnologia social.

Além de garantir água para o consumo doméstico, a política foi ampliada para apoiar a produção de alimentos. Em 2007, a ASA lançou o Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2), voltado à construção de tecnologias que permitem armazenar água também para a agricultura familiar e a criação de animais. A iniciativa fortalece quintais produtivos, diversifica a alimentação e pode contribuir para a geração de renda.

No estado, a experiência acumulada pelas organizações sociais ajuda a explicar por que as cisternas são mais do que estruturas de armazenamento. A água próxima de casa reduz o tempo gasto em deslocamentos, diminui a dependência de fontes externas e permite que famílias organizem melhor suas atividades cotidianas, mesmo quando a chuva se torna irregular.

A agricultora Francisca Rodrigues, da comunidade Bom Destino, em Lajes Pintadas, no Rio Grande do Norte, relatou ao SEAPAC como a chegada da cisterna mudou a rotina da família.

“Minha vida aqui antes da cisterna era sofrida, para todas as mulheres era sofrido. Tínhamos que acordar de madrugada pra pegar um galão d’água. Quando tinha”, contou.

Ao descrever a situação depois da instalação, ela afirmou:

“Ano passado nem compramos água. Hoje não compro coentro, alface, pimenta, pimentão. Muita coisa eu que planto”.

O depoimento evidencia duas dimensões da política: a segurança hídrica dentro de casa e as possibilidades de produção de alimentos no quintal. A experiência também chama atenção para o impacto da escassez de água sobre o trabalho cotidiano das mulheres, frequentemente responsáveis por tarefas domésticas e pelo abastecimento da família.

Depois de sofrer uma forte redução de recursos e de execução nos anos anteriores, o Programa Cisternas voltou a receber investimentos federais a partir de 2023. Segundo o MDS, a retomada buscou recompor o orçamento da política e ampliar a construção de tecnologias sociais de acesso à água, em parceria com estados e organizações da sociedade civil.

No Rio Grande do Norte, o Governo do Estado informa que 4.323 cisternas foram entregues entre 2023 e 2025, distribuídas da seguinte forma: 123 em 2023, 1.900 em 2024 e 2.300 em 2025. Para 2026, a gestão estadual prevê a construção de mais de 2 mil unidades, com investimento informado de R$ 15,4 milhões, incluindo contrapartida estadual.

De acordo com o balanço divulgado pelo governo em 16 de outubro, 1.846 unidades da nova etapa já haviam sido construídas e entregues. Com isso, o total acumulado desde 2023 chegou a 6.169 cisternas, segundo os dados estaduais.

A nova etapa tem como meta atender diretamente 2.531 famílias rurais de baixa renda, o equivalente a aproximadamente 12 mil pessoas. Os critérios de priorização contemplam 1.784 famílias chefiadas por mulheres e 747 famílias de povos e comunidades tradicionais, incluindo indígenas, quilombolas, ribeirinhos e pescadores artesanais. Todas devem estar inscritas no Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal.

As cisternas serão distribuídas por 29 municípios potiguares, com prioridade para áreas do interior do semiárido. Entre os municípios contemplados estão Touros, com previsão de 221 unidades; São Miguel, com 118; Caraúbas, Mossoró e Bento Fernandes, com 110 cada; além de Assú, Ceará-Mirim, Santo Antônio e Nova Cruz, com 100 unidades previstas por município.

Apesar dos avanços, a instalação de cisternas não elimina todos os problemas de acesso à água no campo. O funcionamento dos reservatórios depende da ocorrência de chuvas suficientes para abastecê-los, da manutenção das estruturas e do manejo adequado da água armazenada. Em períodos prolongados de estiagem, outras formas de abastecimento, como a Operação Carro-Pipa, podem continuar necessárias.

Por isso, a política de convivência com o semiárido também envolve outras tecnologias, como poços, dessalinizadores e barragens subterrâneas. A combinação dessas alternativas busca reduzir a vulnerabilidade das comunidades rurais diante da irregularidade das chuvas e das consequências da seca.

A expansão das cisternas representa, assim, uma resposta concreta a um problema histórico do Rio Grande do Norte. Mais do que ampliar o número de reservatórios, o desafio é assegurar que as famílias tenham acesso regular e seguro à água, com condições para permanecer no campo e manter suas atividades produtivas mesmo durante os períodos mais secos.

Saiba Mais: No Semiárido potiguar, engenheira criou nova forma de ler as águas

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