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O curta-metragem potiguar Umbuzeiro consolidou sua trajetória como uma das produções independentes mais premiadas do ano ao encerrar sua participação no 13º Festival de Cinema de Caruaru como o filme mais premiado do evento. Dirigido por Emílio Ribeiro e produzido pela Mistério Filmes, o trabalho conquistou cinco troféus na Mostra Agreste e ampliou para 15 o número de premiações acumuladas desde sua estreia, em março deste ano.
No festival pernambucano, Umbuzeiro recebeu os prêmios de Melhor Filme, Melhor Roteiro, assinado por Camila Paula e Emílio Ribeiro, Melhor Fotografia, para Adriano Pinheiro e Murilo Santos, Melhor Montagem, para Felipe Mojú, e Melhor Atriz, para Múcia Teixeira. Confira o trailer:
O reconhecimento veio acompanhado de uma forte recepção do público, que se emocionou com a história construída a partir das marcas deixadas pela violência contra a mulher. Para Emílio Ribeiro, o resultado representa tanto uma celebração quanto uma confirmação de que a narrativa encontrou eco para além do território onde nasceu.
“Umbuzeiro nasceu de um desejo de falar sobre a violência contra a mulher a partir de um lugar que conhecemos: o sertão. Porém, sem envolver temas normalmente atrelados ao sertão como a seca e o cangaço. Ver o filme ser reconhecido tantas vezes em um festival tão importante mostra que essa história conseguiu ultrapassar as fronteiras do lugar onde foi criada e dialogar com diferentes públicos”, afirma o diretor em entrevista à Agência Saiba Mais.
Segundo ele, há um simbolismo especial no reconhecimento recebido em Pernambuco, estado que compartilha referências culturais e afetivas com o universo retratado na obra.
“Há algo especialmente bonito em Umbuzeiro receber esse reconhecimento justamente em Pernambuco, tão próximo cultural e geograficamente do universo sertanejo que atravessa o filme”, diz.
A violência que permanece
Escrito por Camila Paula e Emílio Ribeiro, o curta escolhe um caminho diferente daquele geralmente adotado por narrativas sobre violência de gênero. Em vez de concentrar a atenção no ato violento, a história volta o olhar para aquilo que permanece depois dele.
A trama acompanha uma mulher marcada por uma experiência traumática e seu filho Elias, um professor que escreve um livro. À medida que a escrita avança, memória e ficção passam a se confundir, revelando como o passado continua habitando o presente.
“A violência não termina quando o ato de violência se encerra. Ela permanece nos corpos, nas casas, nos silêncios, nas memórias e, sobretudo, nas relações. Ela é geracional”, explica o diretor.
Segundo Emílio, a intenção dos roteiristas nunca foi representar a violência de forma explícita.
“Interessava muito mais falar sobre essas marcas do que representar a violência de maneira direta. O filme procura justamente olhar para a maneira como o passado continua interferindo no presente”, afirma.
Essa escolha também se reflete na estética da obra. Os silêncios, os espaços vazios, a casa e a própria paisagem assumem papel central na construção narrativa, aproximando o filme de referências do cinema gótico.
“Escolhemos uma abordagem mais simbólica, em que a memória e o espaço da casa acabam assumindo uma dimensão importante dentro da narrativa”, acrescenta.
Filmado na Fazenda Trigueiro, em Pereiro, no interior do Ceará, Umbuzeiro utiliza a paisagem do semiárido como elemento narrativo. Mas o sertão retratado no curta está distante dos clichês frequentemente associados à região.
“Também queríamos fugir de uma representação estereotipada do sertão. O sertão de Umbuzeiro não é apenas paisagem ou cenário: ele é parte da memória dos personagens, da atmosfera e da própria narrativa”, destaca o cineasta.
A aridez da paisagem, os silêncios e a presença constante da natureza dialogam diretamente com os sentimentos carregados pelos personagens. Nesse contexto, a árvore que dá nome ao filme deixa de ser apenas um elemento visual e passa a ocupar um lugar simbólico na história.
Embora profundamente ligada ao sertão nordestino, a obra tem conseguido estabelecer conexões com públicos de diferentes lugares. Para Emílio Ribeiro, isso acontece porque os sentimentos presentes na narrativa ultrapassam qualquer fronteira geográfica.
“A violência, o silêncio, a memória, a culpa, a dor e a tentativa de sobreviver às marcas do passado podem ser reconhecidos por pessoas de diferentes lugares”, afirma.
O diretor acredita ainda que parte dessa identificação nasce da própria estrutura do filme, que evita oferecer respostas prontas ao espectador.
“Nós não explicamos tudo. Há silêncios, imagens e elementos simbólicos que permitem que cada pessoa estabeleça sua própria relação com aquilo que está vendo”, diz.
A estratégia parece ter funcionado. Desde sua estreia, em março, no Curta Varginha, em Minas Gerais, Umbuzeiro já soma 19 seleções em festivais e mostras nacionais e internacionais, além de 15 premiações. Nas próximas semanas, a produção fará sua estreia internacional no Transhumant Festival, na Espanha, e no 18º Festival Internacional de Cortometrajes Corto Rodado, na Argentina. Apesar do sucesso acumulado, Emílio afirma que o retorno do público continua sendo a maior recompensa:
“Nada paga a reação do público que interage com o filme e se emociona. Para mim, esse é um dos maiores sentidos de fazer cinema: criar uma obra que deixa de pertencer apenas a quem a realizou e passa a existir também na experiência de quem assiste”, finaliza.
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