|
Getting your Trinity Audio player ready...
|
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Lançada no fim do ano passado, a música “Jetski”, do DJ e produtor Pedro Sampaio, em parceria com a cantora Melody e o MC Meno K, virou alvo de debate nas redes sociais após ouvintes apontarem semelhanças com “Somebody’s Watching Me”, sucesso dos anos 1980 do cantor Rockwell.
A semelhança notada pelos ouvintes aparece em um ponto específico da estrutura musical do DJ. Para o produtor e pesquisador Felipe Vassão, a semelhança não está no beat, na harmonia ou no timbre, mas na melodia do refrão. “Tanto a sequência de notas quanto a divisão rítmica são muito parecidas”, afirma.
A coincidência, no entanto, não é suficiente para caracterizar automaticamente um plágio. Vassão lembra que a criação musical opera dentro de um sistema limitado. “Ninguém cria nada do zero.”
A música trabalha com apenas 12 notas, e algumas combinações soam mais agradáveis, por isso acabam se repetindo em inúmeras músicas, explica o produtor. Em gêneros populares, essa repetição é ainda mais comum. “Estilos musicais desenvolvem clichês. Muitos pagodes têm harmonias semelhantes, muito blues é baseado no mesmo vocabulário musical. As semelhanças são inevitáveis.”
Para o especialista, o critério central para definir plágio não é apenas a semelhança sonora, mas a intenção. “O mais importante é a intenção de copiar. Quando alguém usa deliberadamente uma ideia alheia e não combina o jogo, aí entramos no terreno pantanoso do plágio”, afirma.
No caso de “Jetski”, Vassão avalia que o enquadramento técnico mais adequado seria o de interpolação, que ocorre quando um elemento da composição -como a melodia- é reutilizado como base para uma nova ideia.
“Aqui estamos falando apenas da composição, da sequência de notas.”
Segundo ele, a prática não é incomum no pop brasileiro, inclusive na obra da própria Melody. “‘Assalto Perigoso’ é baseada em ‘Positions’, da Ariana Grande, e todos os autores da música original estão nos créditos. Houve negociação, portanto, não é plágio”, diz.
Quanto aos possíveis desdobramentos do caso, Vassão avalia que a via judicial é pouco provável. “O mais comum é a editora da música original procurar a gravadora e a editora de ‘Jetski’ para negociar uma coautoria para o Rockwell”, afirma.
Até agora, o artista e os detentores dos direitors de “Somebody’s Watching Me” não se pronunciaram sobre o debate que surgiu na internet. Procurada pela reportagem, a equipe de Pedro Sampaio não respondeu. A gravadora Sony Music diz que não tem nada a declarar.
