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Há personagens que parecem já ter tido suas histórias completamente contadas. Mas às vezes você só precisa abrir uma caixa de cartas antigas, ouvir um amigo de longa data ou folhear um diário esquecido para descobrir um lado ainda desconhecido. Foi o que aconteceu durante a produção da biografia e do documentário sobre Dom Heitor de Araújo Sales, que completa 100 anos neste mês de julho.
As duas obras, que fazem parte da programação do centenário do arcebispo emérito de Natal, vão além da trajetória institucional de um dos principais nomes da Igreja Católica no Rio Grande do Norte. O objetivo era revelar também o homem por trás da batina: reservado, bem-humorado e profundamente comprometido com as pessoas. Para o jornalista Adriano de Sousa, responsável pelo livro, a maior descoberta não veio dos documentos, mas da percepção de que uma personalidade do porte de Dom Heitor ainda não havia recebido um registro à altura de sua importância.
“O que mais chama a atenção é que uma pessoa do porte dele seja vítima de um traço constitutivo da vida potiguar: a indiferença, senão o desprezo, pela preservação e expansão da memória. As homenagens ao centenário mitigam essa, digamos, ofensa à história do Rio Grande do Norte”, afirma ele em entrevista à Agência Saiba Mais.
Um ano mergulhado na memória
A pesquisa durou quase um ano e reuniu uma equipe formada por Adriano de Sousa, Giovanni Sérgio Rego, Danilo Medeiros, Flávia Assaf e Bruno Evangelista. O trabalho resultou em um amplo acervo composto por entrevistas, fotografias, cartas, diários e documentos pessoais.
Ao todo, foram ouvidas 36 pessoas, entre familiares, amigos, religiosos e colaboradores que acompanharam diferentes fases da vida de Dom Heitor. Além disso, a equipe teve acesso aos diários escritos por ele ainda na juventude, correspondências e artigos publicados ao longo da vida.
Segundo Adriano, a receptividade dos entrevistados e do próprio homenageado tornou a pesquisa ainda mais rica.
“O nosso trabalho foi facilitado pela solicitude das pessoas que deram entrevistas, forneceram fotografias, publicações e outros documentos. E pelo próprio Dom Heitor, que sempre demonstrou, durante quase um ano de trabalho, a paciência, a humildade e o senso de humor que fazem parte do seu carisma.”
Para o jornalista, o resultado não pretende encerrar a história do religioso, mas incentivar novas descobertas.
“Foi possível traçar, senão um retrato completo e definitivo, um esboço que talvez desperte nas pessoas o desejo de conhecer mais sobre ele e sobre religiosos, religiosas, leigos e leigas que construíram momentos importantes da história da Igreja Católica.”
Durante a apuração, Adriano percebeu que o legado de Dom Heitor extrapola a atuação como bispo de Caicó e arcebispo de Natal.
Ele destaca a capacidade de reorganizar dioceses que enfrentavam dificuldades administrativas, fortalecer a renovação pastoral e estabelecer diálogo com diferentes setores da sociedade. Entre os exemplos citados está a expansão da Pastoral da Criança no Rio Grande do Norte, iniciativa viabilizada por sua capacidade de articulação.
“A relevância dele não está apenas no trabalho como bispo de duas dioceses. Ele foi um líder consciente do seu papel social e com grande capacidade de interlocução com a Igreja no mundo, com instituições públicas e com a sociedade.”
Depois de meses ouvindo relatos e mergulhando na trajetória do religioso, Adriano resume o que mais o marcou.
“Ele é um exemplo de bondade, de integridade e de humanismo. Seria maravilhoso se, em tempo de eleições, os candidatos se inspirassem no gestor austero e criativo que ele soube ser; no pastor profundamente comprometido com os pobres por convicção, não por conveniência; e no homem que colocou a própria vida a serviço dos outros, sem nenhum interesse pessoal.”
Fotografias que contam uma vida
Se o livro reconstrói a trajetória por meio da escrita, o documentário escolheu outro caminho: deixar que as imagens conduzissem a narrativa.
Responsável pela direção de fotografia, Giovanni Sérgio Rego conta que a equipe decidiu utilizar principalmente fotografias feitas pelo próprio Dom Heitor ao longo da vida, além de cartas e documentos preservados em seu arquivo pessoal.
“A trajetória de Dom Heitor é tão vasta que optamos por mostrá-lo através de fotografias feitas, em grande parte, por ele mesmo. Sim, Dom Heitor era fotógrafo amador. As imagens do vídeo se baseiam nas fotografias, documentos e cartas do próprio arquivo dele, que, por sinal, é vasto e muito bem organizado.”
Segundo Giovanni, conhecer Dom Heitor de perto também mudou sua percepção sobre o religioso. “Eu o conhecia pelas páginas dos jornais e pelas aparições na imprensa. De perto, Dom Heitor cativa e contagia com sua alegria.”
Para ele, o documentário procura retratar justamente essa combinação entre simplicidade e dedicação. “Dom Heitor é um homem de vida simples, voltado para a Igreja e para os ensinamentos cristãos. Um estudioso dos cânones da Igreja e um administrador eclesial.”
Ao final, o desejo da equipe é que o público enxergue mais do que um líder religioso centenário: “Espero que as pessoas percebam a dimensão de um homem pacífico e de um pastor devotado à sua fé.”
O livro ‘Na unidade, na paz, na alegria – Dom Heitor 100 anos’ será lançado nesta quarta-feira (29), durante a missa em ação de graças na Catedral Metropolitana de Natal. Já o documentário Retratos de Dom Heitor, 100 anos terá estreia na sexta-feira (31), em sessão para convidados no Midway Mall. Depois, o filme passará por cidades como Caicó, Currais Novos e Mossoró e será disponibilizado gratuitamente no canal da Arquidiocese de Natal no YouTube.
Serviço
Lançamento do livro
Data: Quarta-feira, 29 de julho
Durante a missa em ação de graças
Local: Catedral Metropolitana de Natal
Exibição do documentário
Data: Sexta-feira, 31 de julho
Local: Sala de cinema do Shopping Midway Mall (sessão para convidados)
SAIBA MAIS:
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