18.5 C
Ouro Branco

eleições na era das big techs

Anúncios

Getting your Trinity Audio player ready...

As eleições são momentos fundamentais em uma democracia. Quando esse processo é maculado, ele compromete a qualidade da democracia. Ao longo do tempo, em todos os países onde ocorrem eleições, há o uso de tecnologias – que são cada vez mais sofisticadas, ampliadas com o uso da internet, é mais recentemente de Inteligência Artificial(IA), deepfakes etc.,- que contribuem para os questionamentos sobre sua lisura, especialmente pelo uso dessas tecnologias de forma profusa pela extrema direita em eleições (mas não apenas).

E não se trata apenas de pessoas isoladas ou de candidatos que utilizam esses recursos para enganar, manipular e ludibriar os eleitores por meio do marketing político e eleitoral, mas também de grandes empresas, as big techs, que têm seus interesses a serem defendidos, especialmente em relação a legislação dos países e, portanto, da atuação de parlamentares, apoiados por elas, nas respectivas instâncias de representação.

Não por acaso, no Brasil, Projetos de Lei (PL), como o 2630/2020, conhecido como PL das fake news, que objetiva a regulação das plataformas digitais, instituindo a Lei Brasileira de Liberdade, Responsabilidade e Transparência na Internet   contraria não apenas os interesses das big techs, como também de muitos parlamentares, seus aliados. E por isso se posicionam contra, influenciando parcelas da sociedade como se o objetivo do PL fosse o de censurar e pôr fim à liberdade de expressão.

Na realidade, sabem que não se trata disso, como diz o  Art. 4º do PL 2630/2020“Esta Lei tem como objetivos: I – o fortalecimento do processo democrático por meio do combate ao comportamento inautêntico e às redes de distribuição artificial de conteúdo e do fomento ao acesso à diversidade de informações na internet no Brasil; II – a defesa da liberdade de expressão e o impedimento da censura no ambiente online; III – a busca por maior transparência das práticas de moderação de conteúdos postados por terceiros em redes sociais, com a garantia do contraditório e da ampla defesa; e IV – a adoção de mecanismos e ferramentas de informação sobre conteúdos impulsionados e publicitários disponibilizados para o usuário”.

O que se pretende, ao criticar o PL, é o de poder usar uma pretensa  liberdade de expressão para cometer crimes, como calúnias e difamação, mas também o uso sistemático de mentiras, fake news e assim a possibilidade de manipular a opinião pública. A proposta visa justamente o contrário: controlar conteúdos que contenham notícias falsas, mentiras, fake news e punir seus (i) responsáveis.

O PL foi aprovado em 2020 no Senado, e ao longo de cinco anos, não foi sequer votado na Câmara dos Deputados e em ano eleitoral, como em 2026, dificilmente o será.

Em relação às big techs, e os algoritmos, fundamentais em eleições, a questão é bem mais ampla. Como mostra Sergio Amadeu da Silveira, mestre e doutor em Ciência Política (USP) e professor da Universidade Federal do ABC (SP) e um dos maiores estudiosos sobre o tema no Brasil, no livro As big techs e a guerra total: o complexo militar-industrial dataficado (Editora Hedra, 2025). Ele há muito tempo pesquisa e publica sobre o tema (ensaios, artigos e livros) defendendo a tese de que “os dados são ativos de alto valor agregado, além de insumo fundamental da economia informacional” e afirma que “o pensamento marxista é indispensável para compreender esses fenômenos. O digital não eliminou a luta de classes; em vez disso, os sistema digitais dataficados, impulsionados pela voracidade do sistema capitalista em sua crise de acumulação, a reconfiguração em novas bases. Assim os dados se convertem em um tipo específico de capital”.

E que “Os usos letais do aprendizado de máquina com dados civis obtidos em dispositivos de comunicação e interações em redes sociais deveriam ser considerados crimes de guerra, crimes contra a humanidade. As big techs, com suas redes neurais artificiais e demais sistemas invisíveis, atuando em conjunto com as forças militares, formam uma perigosa aliança antidemocrática. A gestão da guerra virando unidade de negócios das big techs pode levar à monetização de conflitos contínuos com baixo custo e alta lucratividade”.

Com base em extensa pesquisa  e exemplos recentes, como os sistemas de IA usados por Israel no genocídio na Faixa de Gaza, mostra como ela pode ser usado como instrumento de dominação e evidenciando não apenas  a importância, como a urgência de um  debate político  (e ético) que tenha entre seus objetivos o que ele chama de “os riscos da fusão entre capitalismo de vigilância e militarismo digital”.

O que é fundamental para a democracia é ampliar os espaços democráticos e evitar que empresas usem impunemente pesquisas e tecnologias, com acesso a dados de milhões de pessoas, para, entre outros aspectos, influenciar e decidir eleições. Como se sabe, há o uso sistemático e eficiente de informações subtraídas de milhões de usuários, especialmente em redes sociais como X, TikTok, Instagram e Facebook, mas também no Google, com sua gigantesca base de dados. Como afirma Sergio Amadeu, um ecossistema de extração, tratamento e análise de dados foi se consolidando no coração do sistema capitalista e que “acumulam e monetizam dados em escala global, dominando setores como entretenimento, agricultura, logística e até serviços públicos”, mas também parece inegável que essas plataformas têm se tornado instrumentos importantes da política, influenciando decisivamente eleições e, assim, colocando em xeque a própria democracia, que tem nas eleições um de seus instrumentos de legitimidade.

Hoje, creio ser possível afirmar que o uso de tecnologias, como Inteligência Artificial (IA)“baseadas em dados tratados pela estatística e pela probabilidade em infraestruturas computacionais de alto processamento”, e  difundidos nas redes sociais tem um papel central nos processos eleitorais.

Nesse sentido, é de fundamental importância analisar a forma como se utiliza o mundo digital para influenciar a opinião pública e as eleições, em particular, mas também os discursos e práticas que afetam os direitos humanos.

Um dos muitos exemplos da possibilidade de manipulação e uso de dados dos eleitores foi o caso da Cambridge Analytica nas eleições de 2016 nos Estados Unidos, que foi importante para a vitória eleitoral de Donald Trump, em novembro de 2016, como é detalhado no livro Manipulados: como a Cambridge Analytica e o Facebook invadiram a privacidade de milhões e botaram a democracia em xeque (Editora HarperCollins, 2019), de Brittany Kaiser. A autora trabalhou na Cambridge Analytica por três anos e meio e, conhecendo a empresa e suas estratégias, tornou público seu conhecimento, mostrando como a empresa operava e os perigos que as big techs representam, para que, da próxima vez, “os eleitores de ambos os lados estivessem cientes de tudo o que está em jogo na guerra de informações que a nossa democracia está encarando”.

Quanto às big techs e seu uso em eleições, no artigo Big Data: Toda democracia será manipulada?Mikael Krogerus e Hannes Grassegger mostram como há especialmente nas eleições mais recentes, o uso sistemático da psicometria, que é um sub-ramo da psicologia baseado em dados, que tem como foco medir os traços psicológicos dos indivíduos com o uso de modelos da matemática e da estatística.

O que eles procuram compreender é o que está por trás do big data. Para eles: “Em essência, tudo o que fazemos, seja on ou offline, deixa traços digitais. Cada compra que fazemos com nossos cartões, cada busca que fazemos no Google, cada movimento que fazemos com nosso celular no bolso, cada ‘like’ é armazenado. Especialmente cada ‘curtida’.”

No caso do uso da psicometria, esse processo antecede às eleições nos Estados Unidos de 2016 e certamente continuou sendo utilizado nas eleições seguintes. Como informam os autores, bem antes, na década de 1980, “duas equipes de psicólogos desenvolveram um modelo que buscava avaliar os seres humanos com base em cinco traços de personalidade, conhecidos como os ‘Cinco Grandes’, que se tornaram a técnica padrão da psicometria: abertura, conscienciosidade, extroversão, afabilidade e neuroticidade”, permitindo uma avaliação relativamente precisa do tipo de pessoa, incluindo suas necessidades, medos e tendências comportamentais (site Outras Palavras, 5/2/2017).

Esse processo foi se sofisticando. Inicialmente, o problema era a coleta de dados, pois exigia o preenchimento de questionários. Isso mudou com o surgimento e o desenvolvimento da internet e, depois, com os dados disponibilizados voluntariamente pelas pessoas nas redes sociais, além do uso crescente da Inteligência Artificial.

Um dos instrumentos utilizados foi o aplicativo  chamado MyPersonality, que possibilitou aos usuários do Facebook, por exemplo, preencher diversos questionários psicométricos e, com base na avaliação, receber um “perfil de personalidade”. No entanto, o resultado mais importante foi que milhões de pessoas revelaram suas mais profundas convicções, formando o maior conjunto de dados psicométricos com perfis do Facebook jamais coletado. E estes podem e tem sido utilizados para diversos fins, inclusive em eleições.

Essencialmente, criou-se um mecanismo de identificação de pessoas com base nas informações que elas mesmas forneciam, ampliado posteriormente com o uso de smartphones, que funcionam como “um vasto questionário psicológico que estamos preenchendo constantemente, tanto consciente quanto inconscientemente”.

Esse modelo inicialmente não tinha como objetivo seu uso em eleições, mas passou a ser utilizado por empresas de comunicação estratégica, que oferecem marketing baseado em modelos psicológicos, sendo posteriormente incorporado também às campanhas eleitorais, por meio da chamada publicidade segmentadacom mensagens personalizadas “ alinhadas o mais precisamente possível à personalidade de cada indivíduo”.

Nos Estados Unidos, as estratégias de mentira, fake news e manipulação possibilitaram a vitória da extrema direita em 2016, com Donald Trump. Embora não tenham sido suficientes em 2020, ele voltou a se eleger em 2024 utilizando mecanismos semelhantes, o que evidencia a possibilidade de replicação dessas estratégias em outros países, como o Brasil.

Uma referência importante sobre esse tema é o livro Democracia manipulada: a explicação por detrás das fake news, do Brexit na Inglaterra, Donald Trump nos Estados Unidos, Macron na França ou do Movimento Cinco Estrelas na Itáliade Martin Moore (Editora Self, Carcavelos, Portugal, 2019).

O autor analisa como Facebook, Google e Twitter (hoje, X) foram usados por empresas de consultoria política para influenciar decisivamente eleições, constituindo o que ele chama de “um mundo de vigilância em tempo real”, com acesso a dados pessoais analisados por meio de tecnologia sofisticada, que distorcem o processo eleitoral e colocam em xeque a própria democracia, a liberdade e a privacidade.

Há, portanto, uma questão central: o que é preciso fazer para salvar a democracia? Como enfrentar fake news, manipulações, hackers, milícias digitais e o controle monopólico das informações? A tecnologia pode manipular a vontade do eleitor por meio de mensagens habilmente formuladas e viralizadas nas redes sociais.

Mais do que apenas manipular resultados eleitorais, essas práticas contribuem para corroer a democracia. Governos autoritários podem ser eleitos usando essas estratégias e, posteriormente, utilizá-las para reforçar seu poder. Por isso, como afirma Martin Moore, é necessário construir uma esfera digital menos centralizada, com espaços cívicos digitais e serviços públicos que não se baseiem no rastreamento de dados pessoais, e, fundamentalmente, o que ele chama de uma democracia digital centrada no cidadão, garantindo seus direitos, entre eles, o direito à privacidade.

Como tem analisado o Programa Permanente de Enfrentamento à Desinformação da Justiça Eleitoral – criado em 2021 pelo TSE – que visa “Proteger a integridade, credibilidade e legitimidade do sistema eleitoral”, com o avanço da IA e as mudanças nas big techs que encerraram programas que garantiam mais transparência na difusão de conteúdos e a adesão dos  seus donos a  Donald Trump, contrário a qualquer medida de regulações que estabeleçam limites e obrigações, tornam as eleições de 2026 um enorme desafio para a democracia no sentido de monitorar e combater a desinformação e suas consequências.

Confira o conteúdo original aqui!

Mais artigos

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Últimos artigos