Debate da TV Ponta Negra expõe Allyson sob pressão por investigação da Mederi

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A Operação Mederi, investigação da Polícia Federal sobre suspeitas de fraude em contratos de fornecimento de medicamentos e corrupção na área da saúde, tornou-se o principal ponto de tensão do debate entre os candidatos ao Governo do Rio Grande do Norte realizado pela TV Ponta Negra nesta sexta-feira (18). O assunto foi levado inicialmente por Cadu de Lula (PT) a Allyson Bezerra (União Brasil) e, na sequência, voltou a aparecer em questionamentos de Álvaro Dias (PL) e Robério Paulino (PSOL).

O episódio colocou Allyson diante de uma questão que acompanha sua candidatura desde a deflagração da operação, em janeiro: o conteúdo da investigação que atingiu sua gestão na Prefeitura de Mossoró e que, até o momento, continua em andamento.

No confronto com Allyson, Cadu questionou especificamente quem seria a “Fátima” mencionada em diálogos interceptados pela Polícia Federal no âmbito da Mederi. A referência ganhou peso porque, segundo documentos e reportagens baseadas na investigação, os diálogos entre empresários da distribuidora de medicamentos Dismed mencionam uma divisão de valores que incluiria uma pessoa chamada “Fátima” e outra identificada como “Allyson”.

“Eu conheço a minha Fátima”, afirmou Cadu, referindo-se à governadora Fátima Bezerra, antes de perguntar a Allyson quem seria a “Fátima” mencionada nas conversas investigadas. Segundo a cobertura do debate, Allyson não respondeu diretamente à identidade da pessoa citada e afirmou que seus adversários estavam utilizando a investigação para atacá-lo.

O que consta na investigação

A questão levantada por Cadu não surgiu de uma acusação criada no debate.

Em uma conversa gravada pela Polícia Federal em maio de 2025, empresários ligados à Dismed discutem a chamada “Matemática de Mossoró”. Na transcrição divulgada a partir da investigação, eles mencionam uma ordem de compra de R$ 400 mil e afirmam que R$ 100 mil seriam destinados a duas pessoas: 10% para alguém identificada como “Fátima” e 15% para “Allyson”. A pessoa chamada Fátima não havia sido identificada pelos investigadores nas informações tornadas públicas.

Em outro trecho da investigação, segundo informações publicadas com base em documentos da PF, os investigadores associam a referência a “Allyson” ao prefeito de Mossoró. A Polícia Federal sustenta que havia referências nominais específicas nas conversas indicando o recebimento de valores por Allyson e pelo então vice-prefeito Marcos Bezerra.

A hipótese investigada, portanto, não é simplesmente a existência de uma conversa sobre política. A PF apura um possível esquema envolvendo contratos públicos de medicamentos, com suspeitas de entregas parciais, superfaturamento, notas fiscais e pagamentos indevidos. Entre 2021 e 2025, Mossoró pagou R$ 13,6 milhões à Dismed, segundo levantamento baseado em dados da investigação.

Essas informações fazem parte de uma investigação criminal. O candidato nega irregularidades e afirma que não há fato que o vincule pessoalmente às suspeitas.

Allyson diz que investigação não encontrou irregularidades

Durante o debate, Allyson afirmou que a operação não teria encontrado irregularidades contra ele e voltou a defender sua atuação. Também disse que havia solicitado, meses antes, que o conteúdo da investigação deixasse de tramitar sob sigilo e pudesse ser conhecido publicamente.

A situação, contudo, exige uma distinção.

O fato de Allyson não ter sido denunciado ou condenado não significa que a investigação tenha sido encerrada ou que a Polícia Federal tenha concluído pela inexistência de irregularidades. A Mederi continua sendo objeto de apuração, e decisões judiciais recentes mantiveram elementos produzidos pela investigação, incluindo escutas e quebras de sigilos, segundo informações publicadas sobre decisão do Tribunal Regional Federal da 5ª Região.

A própria sequência do debate evidenciou essa diferença. Depois da resposta de Allyson, Cadu voltou ao assunto e afirmou que o candidato não havia respondido à pergunta sobre a investigação. O tema foi retomado posteriormente por Álvaro Dias e Robério Paulino, fazendo com que a Mederi ocupasse sucessivamente diferentes momentos do terceiro bloco.

Robério chegou a afirmar que Allyson “nem deveria estar aqui como candidato”, em uma avaliação política sobre a presença do adversário na disputa.

As senhas dos aparelhos apreendidos

Outro episódio da Mederi também ajuda a dimensionar o conflito entre a defesa pública de Allyson e os elementos documentados durante a operação.

Em fevereiro, reportagens baseadas em documentos da Polícia Federal informaram que Allyson não forneceu aos agentes as senhas dos aparelhos eletrônicos apreendidos durante a operação. Segundo o auto de apreensão citado nas reportagens, foram recolhidos dois iPhones, um aparelho Positivo, um MacBook Air, dois HDs externos, um pen drive e um cartão de memória.

Na época, Allyson afirmou publicamente que estava colaborando com a investigação. A existência do registro da negativa de fornecimento das senhas não significa, por si só, que ele tenha cometido crime: o investigado tem direitos assegurados no processo penal, inclusive em relação à produção de provas contra si. Mas o episódio é relevante porque integra a discussão sobre a transparência da investigação que voltou ao centro do debate eleitoral.

Uma investigação que continua produzindo efeitos

A Mederi também ultrapassou a esfera criminal e chegou à Justiça Eleitoral. Em setembro, uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral pediu ao TRE-RN que apurasse uma possível utilização de recursos supostamente desviados de contratos da saúde de Mossoró no financiamento de campanhas políticas, incluindo a candidatura de Allyson ao Governo do Estado.

A ação pede o cruzamento de documentos financeiros, contratos públicos, dados bancários e elementos da própria Mederi.

Mederi vira problema político para Allyson

O debate da TV Ponta Negra produziu uma imagem política clara: o caso deixou de ser uma questão restrita à cobertura policial e passou a ocupar o centro do confronto entre os candidatos ao Governo do Estado.

Cadu levou Allyson diretamente à pergunta sobre a identidade da “Fátima” citada nos diálogos. Allyson respondeu defendendo sua conduta e acusando os adversários de transformar a investigação em instrumento político. Álvaro e Robério retomaram posteriormente o mesmo assunto.

A investigação continua aberta e seus documentos já registraram referências nominais a “Allyson” e a uma pessoa chamada “Fátima” em conversas sobre uma suposta divisão de valores de contratos públicos. O que ainda não existe é uma decisão judicial que estabeleça que Allyson recebeu os valores mencionados nas conversas.

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