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Crédito, Imagens Getty
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- Autor, Nick Levine
- Papel, Cultura BBC
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Publicado
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Tempo de leitura: 8 min
Carregada de significados e emoções, a expressão “ícone gay” costuma ser atribuída a celebridades femininas resilientes, como Judy Garland, Cher e Madonna.
Quando Dusty Springfield (cantora britânica de hits como Filho de um pregador e Eu só quero estar com você) morreu, em 1999, o cantor Neil Tennant, da banda Pet Shop Meninosfoi perguntado por que sua amiga e parceira musical havia se tornado “um ícone gay”.
A resposta de Tennant, como relembrou em uma entrevista à revista Mojo em 2024, foi bastante desdenhosa: “Chamá-la de ícone gay é simplesmente marginalizá-la. É como dizer: ‘Ela só interessa às pessoas gays’.”
Tennant levantou um bom ponto no caso de Springfield, mas ser considerado um “ícone gay” também pode ter um sentido de celebração e de contestação das normas.
É o caso de São Sebastião, soldado romano morto em 288 d.C. por causa de sua fé cristã, durante a perseguição aos cristãos promovida pelo imperador Diocleciano.
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São Sebastião é venerado como santo tanto pela Igreja Católica quanto pela Igreja Ortodoxa, que há séculos difundem a narrativa de que ele foi espancado até a morte depois de repreender Diocleciano por suas crenças pagãs, consideradas “pecaminosas”.
Mas foi um ataque anterior ordenado pelo imperador, quando Sebastião foi amarrado a uma árvore e atingido por flechas, que transformou esse mártir, sobre cuja vida pouco se sabe, em uma fonte constante de inspiração para artistas consagrados.
Só a National Gallery, em Londres, reúne pelo menos 14 representações do santo. Ao longo dos séculos, ele também se tornou um símbolo recorrente do desejo entre homens gays.
Como São Sebastião se tornou um ícone gay
A ascensão de São Sebastião como ícone gay remonta ao Renascimento, período de profundas transformações culturais entre os séculos 14 e 17, quando artistas de destaque como Guido Reni, El Greco e Sandro Botticelli retrataram seu corpo atravessado por flechas com um intenso subtexto homoerótico.
Daniel Fountain, professor sênior de história da arte e cultura visual na Universidade de Exeter, no Reino Unido, disse à BBC que, para historiadores da arte, as flechas costumam ser interpretadas como um símbolo fálico, associado ao sexo penetrativo e à identidade queer (termo em inglês que se refere a identidades sexuais e de gênero que não se encaixam nos padrões heteronormativos).
Clare Barlow, diretora do People’s History Museum e curadora da exposição Arte Queer Britânica 1861–1967realizada pelo museu Tate Britain em Londres em 2017, afirma que, em muitas dessas pinturas, as flechas “ganham um enorme significado psicossexual”, independentemente da intenção original do artista.
“E o fato de Sebastião quase sempre ser retratado como um jovem muito bonito só o torna ainda mais fascinante”, acrescenta Barlow.
Durante o Renascimento, período em que a homossexualidade era muito menos aceita socialmente, as representações artísticas do corpo esguio e desejável de Sebastião se tornaram populares e carregadas de ambiguidade.
Assim como o Davi, de Michelangelo, obra-prima do século 16 que cristalizou um ideal de beleza masculina em mármore, as pinturas desse santo belo e perseguido ofereciam uma forma socialmente aceitável de expressar o desejo entre homens.
Ainda assim, Barlow, do People’s History Museum, ressalta que “muitas vezes é muito difícil saber se essa era realmente a intenção explícita do artista ou se essa leitura foi construída por uma comunidade de espectadores que buscava formas de representação”. Em alguns casos, diz ela, provavelmente havia um pouco dos dois.
Mas com o passar do tempo, São Sebastião acabou se tornando aquilo que hoje poderíamos chamar de uma referência queer sofisticada.
Segundo a escritora, performer e educadora Holly James Johnston, que homenageou o santo em 2025 com uma performance de escultura viva na Wallace Collection, em Londres, o “culto a São Sebastião atingiu seu auge” no fim do século 19. Foi nessa época que intelectuais de destaque, como Oscar Wilde, o ensaísta inglês Walter Pater e o escritor francês Marc-André Raffalovich, passaram a se identificar com o santo de uma forma que deixava implícita sua sexualidade.
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Raffalovich escreveu extensamente sobre a homossexualidade em uma época em que o tema era tabu, mas acabou enfrentando dificuldades para conciliar seus próprios desejos por outros homens com suas crenças religiosas.
Ao ingressar em uma ordem católica, em 1896, adotou o nome de Irmão Sebastião em homenagem ao seu santo favorito.
“Naquela época, Sebastião passou a fazer parte de uma espécie de linguagem codificada entre pessoas queer“, diz Johnston. “Para homens instruídos, era uma forma de compartilhar e expressar seus desejos queer por meio de um ícone imediatamente reconhecível por outras pessoas queer.”
O que São Sebastião passou a representar
Ao mesmo tempo, o apelo de São Sebastião para a comunidade queer vai muito além da aparência. No ensaio O artista como sofredor exemplar (presente no livro Contra a interpretaçãoed. Companhia das Letras, 2020), publicado em 1962, a crítica cultural Susan Sontag cita Sebastião como um exemplo clássico do “sofredor exemplar”, em parte porque seu corpo brutalizado foi transformado em objeto de beleza por diversos artistas.
“Ele quase sempre é retratado da mesma forma: em contraposto, com uma das pernas relaxada, o corpo elegantemente inclinado e o olhar voltado para o céu, em uma expressão que parece de súplica ou até de desejo”, diz Dominic Johnson, professor de história da arte na Universidade Queen Mary, no Reino Unido.
O simbolismo sexual das flechas que atravessam o corpo do santo nas pinturas ganha ainda mais força quando combinado à expressão de aparente êxtase sexual estampada em seu rosto. “Em uma pintura de El Greco, O Martírio de São Sebastiãochega a parecer que seu pano de cintura está caindo”, afirma Johnston.
Por isso, Fountain, da Universidade de Exeter, sugere que Sebastião pode ser visto como uma representação histórica de práticas contemporâneas de BDSM (sigla em inglês para bondage, disciplina ou dominação, sadismo e masoquismo). Embora essas práticas não sejam exclusivas da comunidade LGBTQ+, elas têm maior visibilidade em algumas subculturas queer.
A natureza do sofrimento emocional de Sebastian também abre espaço para diferentes interpretações. Johnson, da Universidade Queen Mary, afirma que sua história pode ter um apelo especial para quem tem uma visão “niilista” ou romanticamente trágica da homossexualidade, sobretudo em épocas de menor aceitação social.
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Entre eles está Oscar Wilde, que adotou o pseudônimo Sebastian Melmoth em homenagem ao santo durante seus últimos anos de exílio em Paris, depois de ter sido preso, em 1895, por “grave indecência” em razão de seus relacionamentos com outros homens.
No Japão do pós-guerra, o escritor Yukio Mishima revelou que uma famosa pintura de São Sebastião despertou seu desejo sexual e recriou a pose do santo martirizado pelas flechas em uma série de fotografias que se tornaram célebres.
Seu impacto nos séculos 20 e 21
O status de São Sebastião como ícone gay se tornou ainda mais forte após as revoltas de Stonewall, em 1969, que deu início ao movimento moderno pelos direitos LGBTQ+.
Em 1976, o influente artista, cineasta e ativista dos direitos gays Derek Jarman prestou homenagem ao santo em Sebastiãofilme considerado inovador por retratar a nudez masculina de forma natural e apresentar representações positivas da sexualidade gay. Na trama, Sebastião (Leonardo Treviglio) é desejado por seu comandante (Barney James), que acaba matando-o, enquanto dois soldados são mostrados vivendo um relacionamento amoroso entre si.
“É um filme importante em parte porque foi muito controverso, especialmente quando foi exibido pela televisão pública britânica, em 1985”, diz Johnson, da Universidade Queen Mary. “Mas também é significativo por ser um filme tão bonito, sensível e provocador sobre homens gays e o desejo.”
Para Johnston, o filme de Jarman, ao mesmo tempo delicado e erótico, “escancarou” o status de São Sebastião como um ícone gay que até então permanecia parcialmente velado.
Barlow, do People’s History Museum, concorda com essa interpretação de Sebastião. Segundo ela, Jarman partiu do “subtexto homoerótico” presente em muitas pinturas renascentistas do santo e o levou ao extremo.
Justamente por seu status de ícone gay ser tão complexo e profundamente enraizado, a imagem de São Sebastião também se mostrou capaz de assumir novos significados ao longo do tempo.
No auge da epidemia de HIV/Aids, nas décadas de 1980 e início dos anos 1990, sua figura apareceu em obras de artistas contemporâneos como Keith Haring e David Wojnarowicz, ambos mortos em decorrência da doença.
Na Idade Média, Sebastião era visto como um santo capaz de proteger as pessoas da peste, talvez porque, segundo a tradição, Irene tenha conseguido curar os ferimentos causados pelas flechas. “Há paralelos claros com a forma como ele foi adotado nos anos 1980, durante uma outra epidemia, quando as representações de Sebastião passaram a retratá-lo como uma espécie de padroeiro da experiência queerda doença e da perseverança”, diz Fountain, da Universidade de Exeter.
Crédito, Alamy
E São Sebastião segue inspirando artistas e performers LGBTQ+ até hoje.
Em 2022, quando a Residence Gallery, em Londres, realizou uma exposição coletiva inspirada em Britney Spears, o artista multidisciplinar Gray Wielebinski criou uma instalação de forte impacto visual que fazia referência ao chicote usado pela cantora em sua turnê mundial de 2009, à píton com a qual ela se apresentou no MTV Video Music Awards de 2001 e às flechas que se tornaram a marca registrada de São Sebastião.
Nascido em Dallas, Wielebinski estabeleceu um paralelo entre a perseguição sofrida por São Sebastião e a forma como Britney Spears, um ícone gay dos tempos atuais, também teria sido alvo da própria fama.
“Há um certo ar de consciência no olhar de Sebastião (em muitas obras de arte), além da graça e da dignidade de sua postura”, disse o artista à BBC. “Eu queria dar a Britney essa mesma graça e um pouco mais de autonomia diante do destino que eu sabia que a esperava.”
Crédito, Holly James Johnston/J Chichester
Retratado por artistas e adotado como referência por pensadores queer ao longo de séculos, São Sebastião consolidou um status de ícone gay que é tão complexo quanto incontestável.
Hoje, no entanto, não há nada de marginalizante nessa forma de vê-lo. Pelo contrário: essa figura histórica, sobre a qual se sabe muito pouco, se tornou uma fonte inesgotável de força e inspiração criativa.
Enquanto pessoas queer continuarem a enxergar aspectos de si mesmas em sua imagem, seu legado seguirá vivo, transformando-se e adquirindo novos significados de maneiras fascinantes.
