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A cada dois anos, quando começa o período eleitoral, candidatos dos mais variados campos ideológicos aparecem com discursos sobre a qualidade ou tamanho dos gastos estatais. Como o dinheiro público não dá para tudo, o debate gira em torno de onde cortar, como arrecadar mais ou gastar melhor.
O que acaba sendo negligenciado pelos candidatos é a quantidade de dinheiro perdido pelo governo e pela sociedade com o tamanho do custo que o crime organizado tem sobre o Brasil — que funciona como um “imposto oculto” e trilionário sobre praticamente todas as atividades econômicas do nosso país. Assim, os debates sobre o ajuste fiscal e sobre a segurança pública seguem paralelamente, como se nada tivessem a ver um com o outro nos discursos eleitorais.
(Esta reportagem faz parte da série Brasil Seguroque examina erros em políticas de segurança pública e traz exemplos do que fazer para assegurar a autoridade da lei. Confira aqui os outros textos da série.)
As facções criminosas em específico e o crime organizado brasileiro como um todo custam até R$ 1,3 trilhão por ano ao país — ou 10,24% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2025, que foi de R$ 12,7 trilhões. É o que revela cálculo conservador feito pelo Instituto Igarapé divulgado no final do ano passado com dados da Amazon 2030, Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), CPI/PUC-RJ, Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), Fórum Brasileiro de Segurança Pública, ETCO/FGV, FNCP, Ibama, Instituto Escolhas, MapBiomas, NTC & Logística, PF e polícias estaduais.
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O fatiamento do custo da violência no Brasil
Do total acima, o estudo discrimina valores por segmentos. Por exemplo:
- crimes e violências no geral contra a sociedade custam R$ 373 bilhões por ano;
- mercados ilícitos e pirataria (incluindo tráfico de drogas), R$ 468 bilhões;
- economia subterrânea e sonegação (incluindo contrabando), R$ 300 bilhões;
- perdas ambientais e ligadas ao desmatamentoR$ 200 bilhões;
- roubo de cargas e ouro ilegal custam outros R$ 3 bilhões por ano.
São assaltos e furtos variados, roubos de carga, tráfico de drogas, contrabando, corrupção de agentes públicos, falsificações, golpes virtuais, jogo ilegal, cobrança de taxas ilegais, domínio imobiliário, do comércio e de serviços como internet em amplos territórios, exploração de serviços públicos de transporte — e a lista não se exaure nos itens anteriores.
O crime organizado brasileiro custa até R$ 1,3 trilhão por ano ao país. É 10% do PIB nacional.
De acordo com o Atlas da Violência 2025, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), cada morte violenta custa em média R$ 1 milhão aos cofres públicos, considerando gastos com sistema de saúde, previdência, segurança, processos judiciais e perda de produtividade. Assim, mesmo em queda histórica, só os homicídios (assassinatos) custam ao país R$ 46 bilhões ao ano.
Dados referentes ao ano de 2023 mostram que os governos federal, estaduais e municipais desembolsaram R$ 124,8 bilhões em segurança pública, com os estados sendo responsáveis por mais de R$ 101 bilhões desse total.
O SUS, por exemplo, gastou R$ 41 milhões em 2022 apenas com internações por ferimentos causados por armas de fogo, um número que não inclui atendimentos ambulatoriais, cirurgias de emergência, reabilitação e os custos psicológicos para vítimas e familiares.
Outro levantamento, do Instituto Sou da Paz, divulgado em dezembro do ano passado, aponta que a violência causada por armas de fogo no Brasil gerou um custo de R$ 556 milhões de recursos federais destinados à saúde pública nos últimos dez anos — e vem aumentando.)
Em 2024, o SUS totalizou um gasto de R$ 42,3 milhões com tratamento de vítimas de armas de fogo. O orçamento foi destinado para o atendimento de 15,8 mil internações. O estudo destaca que o custo médio de uma internação decorrente de lesão por arma de fogo é 159% (ou 2,6 vezes) maior do que o gasto federal médio com outros atendimentos de saúde no mesmo ano. O custo médio por internação para lesão por arma de fogo foi de R$ 2.680 naquele ano.
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Setores de turismo e logística são afetados pelo crime desenfreado
O turismo também é afetado neste cenário. Apenas no Rio de Janeiro, levantamento da Confederação Nacional do Comércio feito a pedido da revista Vejaapontou que a sensação de (in)segurança fez com que o estado deixasse de arrecadar R$ 3,3 bilhões em 2023 com a atividade turística.
Em outra vertente, o setor de logística do país oferece uma ilustração particularmente clara de como o crime atua como uma sobretaxa oculta sobre os produtos de uso diário. De acordo com dados compilados pela Associação Nacional de Transportes, o Brasil registrou 10.478 roubos de carga em 2024, com perdas estimadas em R$ 1,2 bilhão.
Se forem somados os custos de roubos e fraudes relacionados ao combustível, as perdas anuais sobem para R$ 29 bilhões. “A violência e o crime organizado não devem ser compreendidos apenas como uma tragédia humana, mas como um fator estrutural de corrosão econômica e institucionalafirma à Gazeta do Povo Celeste Leite dos Santos, promotora do Ministério Público de São Paulo e presidente do Instituto Pró-Vítima.
“Há convergência na literatura nacional e estrangeira ao reconhecer que a criminalidade produz custos diretos e indiretos sobre arrecadação tributária, produtividade, saúde pública, turismo, mercado de seguros, mobilidade urbana e confiança social”, acrescenta ela. “Trata-se, portanto, de um imposto invisível cobrado da sociedade, com incidência desproporcional sobre os segmentos mais vulneráveis“, define a promotora.
Custo da violência emana perda de investimentos, retração econômica e falha social
A promotora aponta que quando se fala em valores da ordem de R$ 1 trilhão por ano, o dado não apenas traduz a dimensão sistêmica do problema; ele revela a profundidade de seus efeitos. O custo da violência no Brasil não se limita ao delito em si, mas abarca todo o espectro de consequências que dele emanam:
- perda de investimentos,
- retração econômica,
- ampliação do gasto público,
- desorganização territorial,
- enfraquecimento da capacidade estatal de resposta,
- erosão do tecido social.
Organismos internacionais — como Organização das Nações Unidas (ONU), Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) e Banco Mundial — e estudos brasileiros de referência qualificam esse fenômeno como um obstáculo estrutural ao desenvolvimento nacional.
“A resposta do Estado, por isso, não pode ser fragmentada ou reativa. É imprescindível uma estratégia integrada, permanente e fundada em evidências. Não basta atuar após a violência ocorrer. Exige-se a combinação articulada de inteligência criminal, prevenção situada, repressão qualificada, cooperação interinstitucional e proteção integral das vítimas”, afirma Celeste.
“A doutrina contemporânea — inclusive em perspectivas comparadas — é clara: segurança pública eficaz não se reduz à punição. Ela demanda investigação rigorosa, produção de dados confiáveis, coordenação horizontal entre instituições e fortalecimento das redes de proteção e assistência”, elenca ela.

