|
Getting your Trinity Audio player ready...
|
O Rio Grande do Norte ganhou protagonismo no debate político nacional durante o segundo turno das eleições de 2026. Em menos de três semanas, três episódios ocorridos na Grande Natal ultrapassaram as fronteiras do estado e passaram a integrar a disputa de narrativas entre os campos políticos liderados pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e pelo senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência.
Os casos envolvem uma criança filmada com um objeto semelhante a uma arma durante uma comemoração bolsonarista em Parnamirim; a adolescente Valentina Batalha, de 13 anos, que ergueu um exemplar da Constituição Federal durante um ato com Lula em Natal; e o confronto na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), após uma mobilização convocada por setores da direita sob o lema “UFRN anti-Lula”.
Os episódios ganharam repercussão nacional em meio à polarização eleitoral e colocaram o estado no centro de discussões sobre violência política, proteção da infância, democracia e liberdade de expressão. A dimensão simbólica das duas imagens envolvendo crianças foi explorada pelo próprio presidente Lula, enquanto o episódio na universidade teve repercussão em veículos como o UOL e o Correio Braziliense.
Criança com objeto semelhante a arma mobiliza autoridades
O primeiro dos três episódios ocorreu em Parnamirim, na Grande Natal, após o resultado do primeiro turno, em 4 de outubro. Imagens que circularam nas redes sociais mostraram um menino sobre o teto de um carro, durante uma comemoração de apoiadores de Flávio Bolsonaro, segurando e erguendo um objeto semelhante a uma pistola.
O vídeo provocou repercussão nacional e levou autoridades a investigar as circunstâncias do episódio. A Polícia Civil do Rio Grande do Norte iniciou diligências, e o Ministério Público do Estado (MPRN) abriu dois procedimentos para apurar eventuais responsabilidades criminais e adotar medidas de proteção à criança. Procurado, o MPRN informou nesta semana não ter atualização do caso pois corre em sigilo.
O Conselho Tutelar de Parnamirim também acompanhou o caso. Segundo relato da mãe ao órgão, o menino estava sob os cuidados do pai quando as imagens foram registradas. Ela afirmou que os objetos seriam armas de brinquedo. Até então, não havia confirmação oficial de que se tratava de uma arma de fogo real.
O caso foi noticiado pela CNN Brasil e pela Folha de S.Paulo, ampliando a exposição nacional de um episódio ocorrido durante uma comemoração eleitoral na região metropolitana de Natal.
A repercussão também trouxe à tona o debate sobre a exposição de crianças em ambientes políticos e a naturalização de símbolos associados à violência armada. A investigação busca esclarecer as circunstâncias do episódio e eventuais responsabilidades dos adultos envolvidos.
Saiba Mais: MPRN apura criança com suposta arma em ato bolsonarista no RN
Valentina e a Constituição: outra imagem do RN que viralizou
Poucos dias depois, outra criança potiguar passou a circular nacionalmente, desta vez em uma imagem associada à defesa da democracia e da educação.
No sábado, 10 de outubro, durante uma mobilização com Lula e o candidato ao Governo do Rio Grande do Norte Cadu de Lula, no bairro do Alecrim, em Natal, Valentina Batalha, de 13 anos, ergueu um exemplar da Constituição Federal em meio à multidão.
A fotografia viralizou nas redes sociais e ganhou significado político em um momento de intensa polarização. A adolescente, que foi ao ato por vontade própria, não imaginava que o gesto teria tamanha repercussão.
O próprio Lula comentou o contraste entre as duas imagens: a do menino com o objeto semelhante a uma arma em Parnamirim e a de Valentina com a Constituição em Natal.
“Aquela fotografia daquele menino com a arma e colocamos do lado daquela menina com o livro na mão é o fenômeno da diferença do que está em disputa nesse país”, afirmou o presidente, em 12 de outubro.
Em outra declaração, Lula contrapôs os projetos políticos em disputa, associando um deles à valorização das armas e o outro à educação, à cultura, à leitura e à arte.
A comparação transformou dois registros feitos no Rio Grande do Norte em símbolos de uma disputa nacional que ultrapassa a escolha entre candidatos e alcança concepções distintas sobre educação, segurança, democracia e formação das novas gerações.
Em entrevista à Saiba Mais, Valentina contou que gosta de História e Geografia, acompanha a política e admira Lula e a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP). Seu pai, o cientista social Luiz Gustavo Batalha, relacionou a repercussão da fotografia à reflexão sobre o país que as próximas gerações encontrarão.
Saiba Mais: Quem é Valentina, a menina que ergueu Constituição em ato com Lula em Natal
Violência na UFRN leva confronto eleitoral para dentro da universidade
Na segunda-feira, 19 de outubro, a UFRN tornou-se o cenário de outro episódio de repercussão nacional envolvendo a polarização política.
Uma mobilização de setores bolsonaristas, intitulada “UFRN anti-Lula”, foi realizada no campus central, em Natal, com carro de som, boneco inflável do presidente e participação de políticos ligados à direita, entre eles o deputado federal General Girão (PL).
A manifestação, realizada sem autorização institucional, provocou reclamações de estudantes por causa do barulho e da interferência nas atividades acadêmicas. O confronto se intensificou com a aproximação de grupos de posições políticas opostas e terminou em agressões físicas, deixando estudantes feridos e provocando danos a um portão da universidade. A situação também levou à interrupção de aulas e atividades.
O episódio foi noticiado pelo UOL e pelo Correio Braziliense. Os relatos e vídeos que circularam nas redes sociais ampliaram a repercussão para além do Rio Grande do Norte.
Em nota, a UFRN repudiou a violência e afirmou que a divergência de ideias não pode justificar intimidação, ameaças ou agressões. A instituição informou que adotaria medidas administrativas e judiciais para apurar os acontecimentos e responsabilizar os envolvidos.
No dia seguinte, 20 de outubro, o Ministério Público Federal (MPF) anunciou a abertura de um procedimento para investigar possíveis episódios de intimidação, censura e ameaças à liberdade de reunião e expressão da comunidade acadêmica durante o período eleitoral. A apuração abrange ocorrências na UFRN, no Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN), em Apodi, e na Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa), em Mossoró.
O episódio na UFRN acrescentou uma dimensão institucional ao debate que já havia sido impulsionado pelas imagens das duas crianças. Além da disputa nas ruas e nas redes sociais, o confronto passou a envolver a segurança da comunidade acadêmica, a autonomia universitária e os limites da atuação político-eleitoral em instituições públicas de ensino.
Saiba Mais: Após violência na UFRN, direita orienta apoiadores a evitar novos atos
