|
Getting your Trinity Audio player ready...
|
A velha associação entre Bolsa Família e afastamento do mercado de trabalho ganhou um problema de quase 4,6 milhões de empregos para explicar. Entre janeiro de 2023 e julho de 2026, trabalhadores vinculados ao programa responderam por 4,58 milhões dos 5,38 milhões de postos formais acrescentados ao mercado brasileiro depois de descontadas as demissões. A participação corresponde a 85,18% do saldo líquido de empregos com carteira assinada registrado no País no período, segundo levantamento do Centro de Estudos Empíricos em Economia da Fundação Getulio Vargas (CEEE-FGV).
No Rio Grande do Norte, o dado ganha outra camada. O Estado está entre nove unidades da Federação em que o saldo de empregos dos trabalhadores que estavam fora do Bolsa Família ficou negativo, enquanto entre os beneficiários houve mais admissões do que desligamentos. O grupo ligado ao programa terminou, assim, compensando a retração registrada entre os demais trabalhadores. Sete dos nove estados nordestinos aparecem nessa situação: além do RN, Bahia, Pernambuco, Ceará, Maranhão, Alagoas e Sergipe. Acre e Pará completam a relação.
O resultado se distancia da percepção de que uma transferência regular de renda faria seus beneficiários perderem interesse por um emprego formal. O levantamento foi produzido pelos economistas Valdemar Pinho Neto e Luiz Gustavo Barbosa, da FGV, a partir do cruzamento de registros do Caged com informações do Cadastro Único e do Bolsa Família. Em vez de observar opiniões ou intenções, a pesquisa acompanha entradas e saídas efetivamente registradas no mercado de trabalho formal.
Pinho Neto foi direto ao tratar dessa discussão. Em entrevista à Folha de S.Paulo, afirmou: “Uma crítica de que as pessoas do Bolsa Família não querem trabalhar não é uma crítica válida quando você olha para os números”. A declaração acompanha um levantamento em que beneficiários aparecem com participação muito maior no saldo final dos empregos do que no conjunto de todas as admissões realizadas no País.
A diferença entre essas duas medidas é importante. Durante os três anos e sete meses analisados, o Brasil contabilizou 91,8 milhões de admissões e 86,4 milhões de desligamentos, deixando 5,38 milhões de postos a mais no mercado formal. Entre beneficiários do Bolsa Família, foram 15,35 milhões de contratações e 10,77 milhões de saídas, com saldo de 4,58 milhões.
Isso significa que os beneficiários representaram aproximadamente 16,7% de todas as admissões, e não 85% das pessoas contratadas. Sua participação nos desligamentos foi menor, de cerca de 12,5%. O percentual de 85,18% surge quando se calcula a diferença entre quem entrou e quem saiu do emprego formal em cada grupo.
A distinção evita uma leitura enganosa do número e, ao mesmo tempo, preserva o que ele tem de mais relevante. O grupo atendido pelo Bolsa Família teve peso desproporcionalmente elevado na expansão líquida do emprego formal brasileiro entre 2023 e julho de 2026.
Quando o recorte é ampliado para todos os inscritos no Cadastro Único, o saldo chega a cerca de 5,8 milhões de empregos formais. Entre pessoas que estavam fora dessa base, a conta terminou negativa em aproximadamente 460,6 mil postos, resultado de um número de desligamentos superior ao de admissões. Os pesquisadores ponderam que esse saldo negativo, isoladamente, tampouco deve ser interpretado como falta de oportunidades, porque mercados aquecidos também geram pedidos de demissão e trocas de emprego.
O Nordeste aparece com outro peso quando se olha a participação
Em números absolutos, os maiores saldos entre beneficiários acompanham em parte o tamanho dos mercados de trabalho estaduais. São Paulo soma 1,09 milhão de postos líquidos, Minas Gerais 448 mil, Rio de Janeiro 376 mil, Bahia 354 mil e Paraná 234 mil. A leitura muda quando se observa o peso dos beneficiários dentro da geração de empregos de cada estado. Nesse recorte, estados nordestinos ganham relevância, com Bahia, Pernambuco e Ceará entre aqueles em que o grupo responde por parcela expressiva do resultado.
O RN acrescenta uma característica particular a esse mapa: entre trabalhadores que estavam fora do Bolsa Família, as saídas superaram as entradas. Entre os beneficiários ocorreu o contrário. O estudo aponta ainda que todos os estados e o Distrito Federal apresentaram saldo positivo de empregos entre pessoas vinculadas ao programa, o que afasta a hipótese de que o fenômeno esteja restrito a uma ou duas regiões do País.
Essa informação permite uma leitura mais precisa do caso potiguar. O Bolsa Família aparece no estudo associado a um contingente de trabalhadores que continuou avançando no mercado formal mesmo num Estado em que o restante do grupo analisado terminou o período com saldo negativo. O material público divulgado pela FGV e pelo governo federal, porém, não traz no recorte consultado o número absoluto correspondente ao RN, o que impede transformar essa diferença em quantidade de vagas com segurança.
Jovens concentram quatro de cada dez postos líquidos
A pesquisa também mostra quem está por trás desse movimento. Entre beneficiários do Bolsa Família, os jovens de 18 a 24 anos responderam por 1,85 milhão de empregos líquidos, equivalentes a 40,52% do saldo do grupo. A faixa entre 30 e 39 anos aparece em seguida, com 20,97%.
A forte presença dos mais jovens é especialmente relevante porque parte do debate sobre programas de transferência de renda costuma tratar seus beneficiários como um bloco homogêneo. Os registros mostram uma parcela expressiva de pessoas entrando ou se mantendo no emprego formal em idade de início e consolidação da vida profissional.
As mulheres também formam a maioria do saldo, com 2,54 milhões de postos líquidos, equivalentes a 55,40%. Os homens ficam com 44,60%. Entre todos os inscritos no CadÚnico, a diferença diminui, mas elas ainda predominam, com 52,10% do resultado.
O recorte de raça e cor aponta concentração ainda maior entre trabalhadores pardos. Eles respondem por 2,87 milhões de empregos líquidos, ou 62,71% do saldo entre beneficiários. Trabalhadores brancos aparecem com 27,32% e pretos, com 8,81%.
A escolaridade completa esse perfil. Pessoas com ensino médio completo concentram 3,22 milhões dos postos líquidosconsiderados nesse recorte, ou 78,24%. Dentro do CadÚnico, chegam a 4,20 milhões, equivalentes a pouco mais de 80%.
O retrato que emerge é bastante definido: uma parte expressiva do avanço formal entre beneficiários ocorreu entre jovens, mulheres, trabalhadores pardos e pessoas que concluíram o ensino médio.
O que esses números demonstram — e o que ainda fica de fora
O levantamento oferece evidência forte contra uma formulação genérica segundo a qual receber Bolsa Família seria incompatível com trabalhar ou procurar emprego. Milhões de pessoas vinculadas ao programa foram admitidas com carteira assinada no período, e o saldo desse grupo respondeu pela maior parte do crescimento líquido do emprego formal registrado no País.
Essa conclusão, porém, tem um limite metodológico importante. A pesquisa identifica a condição do trabalhador nos registros usados no momento da admissão ou do desligamento, mas não permite afirmar que todas essas pessoas continuaram recebendo Bolsa Família depois da contratação. Segundo os pesquisadores, o estudo mede a participação dos beneficiários nos fluxos do mercado formal e permite observar a convivência entre transferência de renda e trabalho com carteira. Para estabelecer quanto do resultado foi causado diretamente pelo programa, seria necessário outro desenho de pesquisa.
