Afinal, você quer ser protegida de quê?

Anúncios

Getting your Trinity Audio player ready...

Fazer terapia com profissionais de excelência rende boas reflexões. Meu psicólogo me fez essa pergunta há algumas semanas e, justamente no sábado passado, vejo a notícia de uma jovem que foi acorrentada pelo ex-companheiro, torturada e estuprada. Em entrevista, ela afirma que, no início da relação, o amava muito e esperava que ele a protegesse. Na última coluna, eu falei um pouco sobre o tipo de homem que eu quero como parceiro afetivo e o que espero dele. Um dos pontos, que talvez não tenha dito, é a proteção.

Vivemos em uma sociedade machista. Isso não pode nunca ser deslocado das nossas análises. Não dá simplesmente para dizer que podemos nos virar sozinhas em um mundo dominado por homens porque isso não seria verdadeiro. Obviamente que, muitas vezes, temos as mesmas capacidades físicas, emocionais e intelectuais, ou até superiores em muitos casos, mas, no fim das contas, o que vence é a força bruta. Um casal de lésbicas ou de homens gays não consegue se proteger sozinho. Comumente vemos matérias sobre agressões a pessoas homossexuais ou transexuais.

Eu não estou falando de como eu gostaria que as coisas fossem, nem muito menos que concordo com isso. Estou dizendo que assim é e venho, ultimamente, pensando em como sobreviver a isto e como, na prática, tirar proveito disso. Se homens se sentem confortáveis em estar nesta posição de proteção e cuidado, que seja, então cumpram seu papel. Somos as mulheres que dão conta de tudo sozinhas, mas vamos adorar sair do modo sobrevivência e sermos aduladas por vocês. Mas, veja bem, cuidar e proteger é diferente de controlar.

Nós, mulheres, precisamos ficar atentas para não cair nessa armadilha. É uma linha tênue e eu reconheço, então penso que delimitar limites é o ponto-chave para que a relação não saia do controle. “Eu faço”, “eu resolvo”, “vou com você” são frases sedutoras quando acompanhadas de situações como consertar uma pia, lavar o carro, planejar uma viagem, ir ao mecânico, arrumar a casa, fazer o almoço, comprar seus remédios, mas, quando isso muda para “você não vai sair sozinha”, “onde você está e com quem”, “eu não deixei você fazer isso”, “qual a senha do seu celular”, a configuração muda de figura. E, mesmo na primeira opção, é preciso cuidado para não cair na armadilha da manipulação emocional: “Tá vendo? Eu resolvo tudo para você. Quem seria você sem mim?”

Quem acompanha minha trajetória sabe que sou mãe atípica. Giovana, além de surda, passou por quatro cirurgias e eu tive que dar conta de tudo sozinha. Idas ao médico, internações, fisioterapia, briga na escola por auxiliar, brigas em espaços públicos por acessibilidade. Isso sem falar de quando ele se identificava como sendo do gênero masculino e eu comprei briga com as escolas para que respeitassem suas roupas e nome social. Nada para nós foi fácil. Passei por um processo de cirurgia sozinha porque nenhum familiar pôde ficar comigo e eu não tenho mais meus pais.

E o que quase ninguém sabe é que já passei duas vezes por violência doméstica e sexual, uma delas na adolescência. Essa é a primeira vez que falo sobre isso em público. Então, por favor, respeite-me! Tenho lugar de fala para falar sobre pessoas que amamos e que deveriam nos proteger e, no fim, são nossos agressores. E aqui não estou falando do meu pai, pelo amor de Deus.

Felizmente ou infelizmente, sou do tipo sonhadora. Ainda acredito no amor, mas é claro que, depois de tantas decepções, a gente vai criando um muro de proteção porque já entendeu que o príncipe do cavalo branco pode lhe jogar da torre em um momento de fúria. Eu quero viver um amor e estou me permitindo a isto, inclusive ser cuidada e protegida, mas não se enganem, continuo lúcida e atenta. Afinal, ninguém que tenha passado pelo que eu passei segue ileso nesta vida.

E, se você está vivendo uma situação semelhante à que relatei neste texto, procure ajuda. Fale com amigas, com familiares, comigo, denuncie, mas não fique em silêncio. A culpa não é sua e lembre-se: tudo começa com coisas pequenas. Por mais que você ame, vá embora antes que você não esteja mais aqui para contar a história.

“Em 2025, foram registrados 132.025 descumprimentos de medidas protetivas no Brasil”, mas a Lei Maria da Penha é um caminho seguro. Denuncie!

Confira o conteúdo original aqui!

Mais artigos

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Últimos artigos