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Era Finados. Ela limpava a lápide, ajeitava as flores e pronunciava carinhosamente aquele nome inscrito. Na pedra, além do nome, duas datas e algumas palavras: “A palavra me faz existir”. Havia ali uma vida que não cabia na inscrição.
Ler aquele nome era uma forma de recuperar aquela pessoa. Lembrou-se de um apelido, um gesto de mexer nos cabelos, uma expressão repetida, uma mania que naquela hora lhe provocou riso. Aquilo devolvia movimento a quem parecia imóvel na fotografia. O que restou daquela existência?!
Muitos escritos, uma biografia reservada, uma vida inteira dentro de uma sala de aula, muitos ex-alunos e ex-alunas, amantes, amores, afetos, familiares, resgates de animais indefesos, uma história de depressão, um casamento falido, muitas risadas, palestras, conversas, shows assistidos, viagens…
Algumas pessoas deixam livros, retratos oficiais e nomes de ruas; outras são lembradas familiarmente em conversa na calçada. A morta preenchia alguns desses requisitos. Senão todos!
Sua ausência modificou a vida ao redor dos que ficaram. Um silêncio deu lugar a sua eloquente forma de falar; um número de telefone permaneceu salvo, embora ninguém esperasse que ele voltasse a chamar. Alguém ainda se lembrava de suas palavras em momentos alegres ou difíceis, e havia quem repetisse suas histórias, quem sorrisse ao encontrar, por acaso, alguma coisa que lhe pertencera. Qualquer coisa que remetesse a caju era uma forma de desenterrá-la.
A mulher terminou de ajeitar as flores, passou os dedos sobre as letras gravadas na pedra e permaneceu em silêncio por alguns instantes. Será que morrer era isso?! Deixar de habitar o próprio corpo para continuar existindo, de outras maneiras, na memória dos outros!?
Pensou em si própria. Quantas pessoas ainda se lembrariam dela quando também partisse? Quem pronunciaria seu nome quando já não houvesse ninguém para contar suas histórias?
Olhou novamente para a inscrição: “A palavra me faz existir”.
Sorriu. Sabia que enquanto houvesse alguém lendo os escritos daquela que partira, repetindo suas palavras ou encontrando um pouco da defunta naquilo que ela deixara, alguma coisa daquela existência continuaria respirando.
Antes de sair, retirou uma folha seca que havia caído sobre a fotografia, acariciou o rosto impresso na porcelana e disse baixinho:
– Até qualquer dia!
Ao se afastar, voltou os olhos uma última vez para a lápide. A inscrição permanecia ali, silenciosa, contrariando a própria morte: “A palavra me faz existir”.
E existia. Nas palavras, nas lembranças, nos afetos e em tudo aquilo que continuava ensinando aos vivos, mesmo depois de morta.
