Websérie potiguar Onã leva periferia e Jurema Sagrada ao Rio Webfest

Anúncios

Getting your Trinity Audio player ready...

A história de uma pessoa criada na periferia de Parnamirim, no Rio Grande do Norte, que encontra na arte e na espiritualidade caminhos para reconstruir a própria relação com o feminino vai chegar às telas do Rio Webfest 2026. A websérie potiguar Onã, uma autoficção de Bruno Wellington, recebeu cinco indicações no festival internacional de produções audiovisuais para a internet e será exibida na programação, entre os dias 27 e 30 de novembro, no Rio de Janeiro.

A produção concorre nas categorias Melhor Direção de Drama, Melhor Websérie de Drama, Melhor Produção, Melhor Performance Infantojuvenil, com Raul Silveira, e Melhor Websérie Brasileira. A votação popular começa neste domingo (18) e segue até 18 de novembro.

A trama acompanha Poti, um jovem periférico que, por meio da Jurema Sagrada, ressignifica experiências dolorosas e encontra na arte uma forma de expressar o feminino reprimido durante a infância. A criação de uma drag queen se torna parte desse processo de reconhecimento e reconstrução da própria identidade.

A obra parte das experiências pessoais de Bruno Wellington, que utiliza a ficção para revisitar memórias atravessadas por violência, acolhimento e descoberta. “Onã é uma autoficção, uma escrevivência minha: um retorno ao passado para cuidar de dores que a arte e a espiritualidade de matriz afro-indígena me ajudaram a enfrentar”, explica o artista em entrevista à Agência Saiba Mais. Confira o trailer:

O nome Poti, inclusive, surgiu como um apelido recebido por Bruno durante o período em que viveu em Recife, onde cursava Geografia na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Foi também na capital pernambucana que a ideia da websérie começou a tomar forma.

Após a morte precoce da madrasta, que o ajudava a permanecer na cidade, Bruno enfrentou dificuldades financeiras, perdeu trabalhos e passou a morar na residência universitária. Foi nesse período que começou a escrever o roteiro. A criação surgiu em meio ao processo de aproximação com seu próprio feminino e de elaboração de experiências vividas desde a infância.

A espiritualidade também ganhou importância nesse caminho. Antes de se mudar para Recife, o artista já participava de uma corrente mediúnica de Umbanda no Rio Grande do Norte, experiência que o aproximou de entidades femininas, como pombagiras, mestras e ciganas. Em Recife, o contato com terreiros de Jurema e Candomblé aprofundou essa relação.

“Eu tinha me mudado para Recife com vontade de experimentar a liberdade de ser quem eu sou, sem pensar tanto no julgamento das pessoas”, conta Bruno. Segundo ele, a espiritualidade e o acolhimento encontrados nos terreiros ajudaram a ressignificar dores e a compreender que sua expressão artística não deveria ser motivo de culpa.

Na websérie, a espiritualidade ajuda Poti a se reconhecer, enquanto a periferia guarda as memórias e os vínculos que atravessam sua trajetória. A criação da drag queen Brunette também nasce desse reencontro com o passado.

Na infância, Bruno era alvo de provocações por dançar e se expressar de maneira diferente das expectativas de gênero. Um dos apelidos usados para ridicularizá-lo, Brunette, foi ressignificado e transformado no nome de sua personagem drag.

“Hoje, reconheço em Brunette a potência daquela criança que dançava e se expressava livremente”, afirma o artista. Na obra, a personagem representa a possibilidade de acolher esse feminino e reconhecer seu valor. A construção de Brunette articula memória, ancestralidade e arte, em uma história que procura dialogar com outras pessoas que também enfrentaram dificuldades para expressar a própria identidade.

Além da trajetória pessoal que inspira a trama, Onã também se destaca pela participação de profissionais do próprio estado. A websérie foi produzida por uma equipe de 43 pessoas do Rio Grande do Norte, com prioridade para a inclusão de pessoas negras, LGBTQIA+, mulheres e integrantes de comunidades de terreiro em funções de criação, decisão e execução.

Os seis episódios foram gravados em cinco diárias, em locações como a Toca da Raposa, em Parnamirim, e o Ilê Axé Obé Otogundá Irê, em Natal.

O orçamento foi um dos principais desafios da produção, especialmente para a locação dos equipamentos de imagem e som. Segundo Bruno, foi necessário adaptar escolhas técnicas, organizar a logística das gravações e administrar os recursos disponíveis para manter a proposta artística da obra.

A realização contou com recursos da Lei Paulo Gustavo (LPG) no Rio Grande do Norte e da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), por meio do Ciclo I em Parnamirim. Para o artista, o reconhecimento no Rio Webfest também evidencia a importância das políticas públicas de cultura para viabilizar produções independentes.

“Fazer cinema no Brasil é difícil e caro. Sem as políticas públicas culturais, Onã não teria sido possível”, destaca Bruno. Para ele, as cinco indicações também reconhecem o trabalho de uma equipe majoritariamente negra, LGBTQIA+, periférica e de terreiro.

O realizador defende que ampliar a presença dessas produções no audiovisual significa abrir espaço para histórias e experiências que historicamente tiveram menos visibilidade. “Ocupar essas telas com nossas histórias é afirmar nosso direito de existir e de sermos lembrades”, afirma.

Ao levar a Jurema Sagrada às telas, Onã também busca valorizar uma tradição presente na cultura potiguar e apresentar os terreiros como espaços de acolhimento, memória e criação.

A votação popular do Rio Webfest 2026 começa neste domingo (18) e vai até 18 de novembro. O festival acontece de 27 a 30 de novembro, no Rio de Janeiro, e a websérie será exibida durante a programação. Para além da disputa por prêmios, as cinco indicações representam uma oportunidade de ampliar a circulação do audiovisual potiguar e de histórias construídas a partir das periferias, da cultura LGBTQIA+ e das comunidades de terreiro.

SAIBA MAIS:
Produção potiguar estreia série documental sobre força feminina global



Confira o conteúdo original aqui!

Mais artigos

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Últimos artigos