Emanuismo lança disco inspirado nas batalhas de rima de Parnamirim

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Depois de quase uma década atuando nos bastidores da música independente potiguar, dirigindo e captando videoclipes para artistas de Natal e da Região Metropolitana, Emanuismo, conhecido como Nenel, assumiu o protagonismo da própria narrativa com o lançamento de Manual de Como Perder Amigos. O álbum de estreia do rapper, cantor e compositor reúne relatos pessoais, reflexões sobre a juventude natalense e críticas sociais em um trabalho que busca retratar a cidade a partir de experiências vividas nas ruas, nas batalhas de rima e nos afetos que atravessam sua trajetória.

A passagem do audiovisual para a música autoral, segundo o artista, aconteceu de forma natural. Acostumado a construir imagens para contar histórias de outras pessoas, ele sentiu a necessidade de transformar suas próprias experiências em matéria-prima criativa.

“Chegou um momento em que senti a necessidade de ser o autor da minha própria narrativa do início ao fim. A música me dá a liberdade crua de expor minhas próprias vivências, enquanto a minha bagagem no audiovisual me ajuda a enxergar esse disco de forma muito visual e conceitual”, afirma em entrevista à Agência Saiba Mais.

Ouça:

O resultado é um trabalho que reúne composições escritas ao longo de quase uma década e que se afasta das fórmulas mais reproduzidas do rap brasileiro para buscar referências ligadas à experiência nordestina. Em vez de reproduzir modelos consolidados em outros centros urbanos, Nenel tenta construir um retrato de Natal a partir das suas próprias vivências e das contradições da cidade.

“Eu queria deixar registrado um retrato honesto, e por vezes incômodo, da nossa juventude em Natal. A cidade é muito moldada por silenciamentos”, diz.

Essa intenção aparece especialmente em “Sensacional”, faixa apontada pelo próprio artista como porta de entrada para o álbum. Na música, ele revisita personagens históricos e questiona narrativas cristalizadas sobre a memória potiguar, ao mesmo tempo em que incorpora referências intelectuais como a pensadora Lélia Gonzalez.

Para Emanuismo, o disco também procura disputar a forma como a juventude periférica costuma aparecer no noticiário.

“Há uma forte intensidade de jovens em situações muito semelhantes à minha que só ganham visibilidade quando aparecem em páginas de notícias locais expostos pelo crime. Eu quis usar esse disco para mostrar o outro lado da moeda: esses mesmos jovens têm voz, intelecto e arte”, afirma.

O álbum nasce ainda de uma trajetória construída nas batalhas de rima de Parnamirim, onde o artista passou a adolescência após deixar Natal. Foi nesse ambiente que começou a desenvolver a persona Emanuismo, inspirada em seu apelido de infância, e a escrever letras que mais tarde formariam a base do disco.

Apesar do título sugerir rupturas, Manual de Como Perder Amigos trata menos do afastamento e mais dos custos de permanecer fiel às próprias convicções. O trabalho percorre temas como amadurecimento, isolamento, amizades desfeitas e as transformações impostas pela vida adulta.

“O disco é, no fundo, sobre o preço que pagamos para nos mantermos fiéis a quem somos diante das concessões da vida”, resume.

Rap orgânico e músicos da cena potiguar

Um dos diferenciais do álbum está na sonoridade. Em vez de se apoiar exclusivamente em bases eletrônicas, o projeto foi construído com uma banda formada por músicos experientes da cena independente de Natal.

A produção musical é assinada por Gabriel Souto, fundador da DuSouto, grupo reconhecido por aproximar música eletrônica, grooves regionais e experimentação sonora desde os anos 2000. Completam a formação Ian Medeiros na bateria, Rodolfo Almeida no baixo e guitarra e João Victor Lima, o VZL Swami, nas cordas.

Nenel atribui a Gabriel Souto um papel central na construção do trabalho.

“Tirar essas ideias do papel exigia um arquiteto, e esse papel foi do Gabriel Souto”, afirma. “Ele organizou toda essa efervescência no estúdio e foi o maestro que conectou as minhas letras e batidas com o entrosamento que os músicos já traziam de outros projetos.”

A influência do produtor, segundo o rapper, ajudou a transformar as composições em um disco que combina rap, improvisação, instrumentação ao vivo e elementos eletrônicos.

O resultado é um álbum que percorre caminhos entre o jazz-rap, o hip-hop alternativo e a música instrumental contemporânea, sem abandonar a preocupação de falar sobre Natal e seus personagens.

Mais do que uma estreia musical, Manual de Como Perder Amigos marca a passagem de Nenel de observador para protagonista. Depois de anos registrando a trajetória de outros artistas por trás das câmeras, ele usa o primeiro disco para construir sua própria narrativa e propor um retrato da juventude potiguar que raramente encontra espaço fora das estatísticas e das manchetes policiais.

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