Sobre notas de repúdio e abaixo-assinados

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Esta semana está sendo desafiadora para a sempre frágil democracia brasileira. O ministro do STF André Mendonça, aquele “terrivelmente evangélico” determinou o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues e o diretor de inteligência, Leandro Almada. Mendonça, a pedido do partido Novo, alegando nas investigações envolvendo o Banco Master sofreu um monitoramento ilegal e suposto favorecimento ao presidente Lula. Balela, como sabemos todos. Mendonça há tempos vem se portando mais como um militante da extrema-direita no Supremo do que como um magistrado, justo nas vésperas das eleições. Inclusive no seu confronto com Alexandre de Moraes, pedindo, até mesmo, investigação sobre o colega. É preciso registrar que o também ministro do STF Flávio Dino revogou a decisão de Mendonça e determinou o retorno de Andrei e Leandro às suas funções.

Mas o que me perturbou neste episódio, em plena reta final de campanha eleitoral, foi a passividade com que políticos, jornalistas, operadores do direito e opinião pública em geral adotaram em relação às atitudes no mínimo suspeitas e claramente ideológico-partidárias de Mendonça. Associações e sindicatos lançaram notas de repúdio bem tímidas. Políticos progressistas e entidades de Direito nem isso.

Há tempos venho reclamando das notas de repúdio, Ganhei ojeriza delas, assim como de abaixo assinados, principalmente os virtuais. Sempre tenho a sensação que uma nota de repúdio é como um habeas corpus preventivo de um grupo de pessoas que quer confrontar algo mas não sabe como fazê-lo, ou tem medo, e então tem a ideia brilhante de soltar uma nota repudiando a ação ou fala alheia. “Ufa, pronto, mostramos a quem nos ofendeu ou nos agrediu o quanto estamos aborrecidos e queremos que ele pare com isso”.

Nesse aspecto, abaixo-assinados são ainda piores, no sentido de inutilidade prática e sensação de que se está lutando por uma causa (o que é bom para a consciência ficar mais limpa e para a auto-estima). Israel está matando crianças em Gaza? Vamos de abaixo assinado (para mandar para Netanyahu?). Precisamos liberar o canabidiol para fins médicos e a maconha para fins recreativos! Já sei, vamos conseguir isso com um abaixo assinado virtual.

Certo, estou pegando pesado na ironia e tenho plena consciência que não é batendo e arrebentando que se resolve os problemas nem se ajeita as coisas. Sou pelo diálogo e tenho a prática diplomática como práxis em minha vida cotidiana. Mas há momentos em que é necessário mais do que a teoria das boas intenções (das quais o inferno está cheio, como reza o ditado) e palavras bonitas.

Como no atual momento histórico em que, mais uma vez, um golpe parece estar sendo posto em prática, com um ministro do Supremo explicitamente ligado a um lado político, um presidente dos EUA claramente interferindo nas eleições brasileiras e uma mídia que passa pano para o bolsonarismo e seus escândalos enquanto continua, como faz há quatro décadas, demonizando Lula e o PT.

Por falar no presidente, admiro seu republicanismo e luta pela paz entre instituições, mas talvez já fosse hora de se mostrar mais incisivo em questões como o papel da grande imprensa, autonomia brasileira e explicitar as diferenças de projetos de país. O Governo Lula como um todo, aliás, poderia se comunicar melhor com a população, usar de horários de tv, investir em rádios, mostrar o que foi feito e está em funcionamento.

Há quem reclame que a esquerda não chama mais o povo às ruas. Na verdade, ainda que possa ter seu impacto, a verdadeira batalha pela população (e pelo eleitorado) é travada nas redes sociais, como sentenciou André Janones. Um terreno onde a esquerda quase sempre perde de lavada.

Talvez porque progressistas queiram se comunicar de forma republicana e convidar a outra pessoa à reflexão. Enquanto a extrema-direita se comunica de maneira rápida, objetiva, barulhenta e chama à emoção. Claro que há quem tenha entendido como se comunicar, mas as exceções só confirmam a regra.

Para se lutar contra monstros é preciso ter cuidado para também não se tornar um monstro, como escreveu Nietzsche. Mas também não dá para enfrentar o fascismo com notas de repúdio e abaixo-assinados no Avaaz, né?

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