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No início de 2014, eu chefiava o Núcleo de Audiovisual e Novas Mídias da secretaria municipal de Cultura, na gestão do prefeito Carlos Eduardo. O setor foi criado pela administração anterior e, a não ser por uma ilha de edição, não havia estrutura física nem humana que desse conta do setor.
Atravessamos 2013 em estado de penúria, devendo o pagamento de editais anteriores e pensando ideias para fomento e financiamento de políticas públicas para acalmar o segmento, ávido por novidades e dinheiro.
Uma dessas ideias chegou pela mente inquieta do documentarista Carlos Tourinho (1939 – 2023), carioca boêmio apaixonado por Natal, em especial pela geografia humana do Beco da Lama. Ao entrar na sala, Tourinho perguntou se eu não topava promover uma palestra com Sílvio Tendler, o cineasta dos sonhos interrompidos, que viria ao Rio Grande do Norte concluir as filmagens de seu mais novo documentário “Militares da Democracia: os militares que disseram não”.
Como Tendler viria de qualquer jeito, não precisava pagar passagens nem cachê. Era a proposta dos sonhos. Mas tinha um porém: as filmagens do filme ocorreriam no município de São Rafael, distante 384 quilômetros de Natal. E como apoio, ele precisava do transporte que o levasse, junto à equipe, até o interior do Estado. Além do cineasta, iriam a cinegrafista e sua companheira, Fabiana Fersasi, e o próprio Carlos Tourinho.
Tendler e Tourinho eram amigos de longa data. Trabalharam juntos em alguns filmes e mantinham contato esporádico. O secretário municipal de Cultura, Dácio Galvão, ficou entusiasmado com a ideia, mas após tentar alguns contatos veio o balde de água fria: a prefeitura não tinha carro disponível para a data desejada.
Lembrei então que o Sindicato dos Bancários havia comprado uma Doubló para viagens mais longas. Falei com a jornalista da entidade, Ana Paula Costa e, após autorização da direção, conseguimos o transporte.
Como Tendler chegaria no final de semana, fomos a São Rafael primeiro, dia 2 de fevereiro, um domingo. O debate com ele foi realizado dois dias depois.
Na data fechada, pegamos a estrada. Sílvio, Tourinho, Fabiana, eu e Ana Paula, a assessora Sindicato dos Bancários que fez as vezes de motorista.
Na estrada, com Sílvio Tendler

No trajeto, Tendler nos contou que seu próximo filme já tinha sido concluído quando descobriu que o primeiro fuzileiro a se recusar a aderir à ditadura militar em 1964 foi o potiguar Raimundo Nonato Barbosa, que morava esquecido no município de São Rafael. E ele não pensou duas vezes: o filme não podia terminar sem que ele tirasse aquela história a limpo.
“A história não tem ponto final mesmo. O filme estava pronto quando soube que o primeiro fuzileiro naval a depor a arma, o capacete e aderir à reunião dos marinheiros no Sindicato dos Metalúrgicos, em 1964, estava vivendo em sua cidade de origem, São Rafael, no Rio Grande do Norte, a 200 quilômetros de Natal. Fui para lá e no caminho vi milhares de hectares de terra, cercados pelo latifúndio, despovoados e sem plantações. Me lembrei do presidente João Goulart, pois uma de suas últimas medidas teria sido desapropriar terras não cultivadas ao longo das rodovias. Há 50 anos esse problema poderia ter sido resolvido”, diz o cineasta no filme.

As cenas do percurso de Tendler na estrada até São Rafael, e o encontro com o fuzileiro Raimundo Nonato Barbosa, têm 8 minutos e foram incluídas após os créditos do documentário.
Com a nossa chegada, o ex-fuzileiro saiu de casa meio assustado sem camisa, de bermuda e chinelo de dedo. Perguntado por Tourinho se era “Raimundo Nonato, o herói”, negou o título:
“Queria ser”, respondeu encabulado.
À Tendler, Raimundo confirmou que foi um dos 26 fuzileiros navais presos no Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro, onde militares comemoravam, em 25 de março, os 2 anos de fundação da Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil. A festa contou com a participação de várias personalidades da época, incluindo João Cândido, o famoso Almirante Negro, líder da Revolta da Chibata, de 1910.
Raimundo e os colegas foram acusados de insubordinação. O alto comando militar enviou os 26 fuzileiros para cercar o Sindicato dada a grandiosidade do evento. Chegando lá, o grupo se recusou a obedecer a ordem e aderiu à festa. Raimundo Nonato foi o primeiro fuzileiro a jogar no chão a arma e o capacete. O ato encorajou os 25 colegas que estavam com ele.
“Nasci aqui (em São Rafael). Depois de Imperatriz, no Maranhão, vim para cá. Fui preso em 1964, ficamos (na prisão) do Alto da Boa Vista, eu e aqueles 26. Era realmente o aniversário da Associação, eu cheguei e arriei (a metralhadora e o capacete) e os colegas também. Estavam o Coutinho, a turma toda…”contou Barbosa.

À sombra de uma árvore, testemunhamos um reencontro com a história. A entrevista durou aproximadamente 30 minutos, tempo em que Raimundo e Sílvio relembraram fatos de uma época sombria que encontra ecos ainda hoje.
“Cheguei em São Rafael e encontrei o fuzileiro Raimundo Nonato Barbosa vivendo com sua sobrinha e família. Foi um encontro de muita alegria e um reencontro com a história. Considero Raimundo Nonato um personagem tão importante quanto foi João Cândido Felisberto, em 1910. Este filme termina com uma homenagem a ele”encerrou o cineasta no filme.
Após a despedida, na volta para Natal, paramos em um restaurante na beira da estrada para almoçar. Tendler estava feliz feito criança com o desfecho do filme. Relembrava histórias de trabalhos anteriores, contava causos, alguns testemunhados pelo amigo Tourinho, mas tudo mudou após receber um telefonema.
Naquele 2 de fevereiro de 2014, enquanto almoçava, Sílvio Tendler foi avisado da morte do amigo Eduardo Coutinho, assassinado a facadas pelo filho, em surto. A notícia deixou o cineasta arrasado. Da mesma geração, Coutinho e Tendler são as duas grandes referências do cinema documental brasileiro. Voltamos para casa praticamente em silêncio no carro.
No auditório lotado, Sílvio Tendler celebra Coutinho e o cinema

Dois dias depois, como combinado, reencontramos Tendler em Natal para uma noite que acabou sendo também uma grande celebração a Eduardo Coutinho. Foi um sucesso. Sílvio falou sobre “O documentário brasileiro: ontem e hoje”, relembrou histórias com o amigo e lotou o auditório da Funcarte. Tinha gente em pé.
Uma noite histórica com um dos maiores personagens do cinema brasileiro, responsável por contar períodos históricos que a história oficial tenta apagar e dono ainda hoje das maiores bilheterias do documentário nacional.
Sílvio Tendler morreu nesta sexta-feira (6), aos 75 anos, após rodar mais de 70 filmes, entre curtas e longas-metragens. Contou histórias sobre os ex-presidentes Juscelino Kubitscheck, João Goulart e Tancredo Neves, reviveu personalidades do tamanho de Castro Alves, Glauber Rocha e Carlos Marighella, contou a trajetória de Didi, Dedé, Mussum e Zacarias, de Os Trapalhões, falou da importância dos profissionais de saúde na pandemia e espanou a poeira de outros tantos temas importantes do Brasil.
Em seus filmes, Sílvio Tendler ensinou que a história não tem ponto final. E pelo menos uma das que ele contou, em São Rafael (RN), eu pude testemunhar.
